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sábado, 25 de outubro de 2014

Meu vestido cor de rosa

Minha mãe é um ser humano engraçado. Ela é do tipo coruja nível regular, sabe? Daquelas que posta foto minha com homenagem no facebook, quando dá na telha, mas que sabe apontar meus erros e não passar a mão na minha cabeça – nem quando estamos sozinhas, nem na frente dos outros. E ela não é do tipo nostálgica acumuladora. Está aí um dos nossos grandes atritos emocionais, daqueles do tipo que certamente vão me colocar na frente de um psicológo que me dê certeza de que a culpa é da mãe, sempre.

Tenho uma tia coruja que tem desenhos de quando eu era criança. Cadernos de bobagens que eu rabiscava. Se bobear, ela tem guardados textos que eu escrevia pequena. Ela tem cartinhas em uma caixa e até, pasmem, uma toalhinha de rosto que eu pintei no jardim 1. Era presente de dia dos pais, mas os meus certamente acharam a toalha esquisitinha. Minha tia não. Se encantou com ela e sempre põe no banheiro quando eu vou pra lá.

Minha mãe é ótima, mas não se preocupou em guardar desenhos, nem cartinhas (deve ter uma ou duas), nem presentinhos de dia das mães da escola e fez o favor de tornar possível que sumisse um disquete (sim) de textos que eu escrevia no computador quando era pequena. Gente, olha a veia de escritora (aham, sdds): aos 8 anos eu escrevi um texto de 10 páginas! Aquilo era o orgulho da minha vida. Passei meses no word. Era a história de uma menina que ganhava uma irmãzinha e viajava pra Disney. Lembro até agora do meu ótimo senso criativo – as bisavós da protagonista se chamavam: Holanda, Rússia e Itália – e do meu pouco conhecimento biológico – a gravidez da mãe dela durou 1 ano. Não acredito que perderam esse disquete. Se fosse uma cria minha escrevendo essas maravilhas eu faria no mínimo 10 backups. Não é todo dia que se tem a chance de usar o trem desses em um discurso na formatura – claro que serei dessas mães que discursa.

Mas a história nem era sobre isso. A história é que minha mãe não guarda as nossas coisinhas nostálgicas e, como a minha família é enorme, nossas roupas e mantas sempre foram passando para os primos que iam nascendo, de forma que nem minha manta da maternidade eu tenho. No meio dessa confusão toda, escapou um vestidinho. Um vestidinho cor-de-rosa de bolinhas que, segundo a progenitora, foi o primeiro vestido que eu usei na vida.

Ele é tão fofo e tão pequeno que eu, que já corujo meus futuros filhos antes mesmo deles sonharem em existir, mal posso imaginar vestir nele a minha menina. Estou aqui, agora, na verdade, imaginando que tipo de reflexão você leitor está esperando dessa lenga lenga toda. Sinto muito: não vai ter nenhuma. A verdade pura e simples (que raramente é pura e nunca simples, segundo Orwell) é que eu precisava postar por causa do desafio 7 dias 7 crônicas que vira e mexe eu e a Anna resolvemos fazer. O texto tinha que sair antes da meia noite e já passou das 23h. Eu não tinha tema nenhum, de modo que recorri ao grupo “642 coisas sobre as quais escrever” no facebook, sorteei o número 45 e nele estava escrito “Uma peça de roupa que guardou como lembrança”. Aí eu lembrei do vestido. E resolvi que tentaria tirar algo em relação à falta de nostalgia da minha mãe e o vestido cor-de-rosa. Não consegui, mas saiu isso aqui. Será que dá pra ser considerado uma crônica? Eu sou uma fraude.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Crème Bruleé

Se você é da mesma geração que eu e passou parte da adolescência cantando High School Musical (nem adianta negar, tô de olho) você lembrou do registro. Sim, no meio de Stick with the status quo, aquela coreografia gigante envolvendo mesas e cadeiras na cantina, no primeiro filme. Um dos personagens fala que sair do seu status quo seria assumir que gosta de cozinhar e que faz Crème Bruleé muito bem.

Eu nunca esqueci o tal do Créme Bruleé. Fui vivendo caminhando e cantando e seguindo a canção e de vez em quando lembrava do negócio que eu nem sabia direito o que era – mas que tinha um nome incrível e certamente parecia apetitoso.

Tenho uma colega de trabalho muito chique. Já rodou a Europa inteira, seus filhos são meio brasileiros meio franceses e ela é apaixonada pela França, de modo que resolveu comemorar seus 63 anos em um restaurante francês. Lá fui eu. Depois de uma champirinha e de um risotto de camarão com brie maravilhoso, qual não foi minha alegria quando abri o cardápio de sobremesas e dei de cara com ele. Majestoso. O crème bruleé.

Nem tive dúvidas. Pedi. E o garçom veio com ele e tostou na minha frente! Saiu aquela fumaça cheirando a açucar e eu senti ali que meu destino sobremesístico com a mousse de chocolate estava em perigo. Quando bati a colher na casquinha queimada e aquilo trincou, quando botei a primeira colherada do tal creme na boca, foi ali que eu descobri que nunca mais posso viver sem isso.´

Eu comi Créme Bruleé. Anos depois de ter ouvido falar dele no High School Musical. E só posso dizer que estou profundamente apaixonada. Só de pensar lembro do cheirinho do açúcar e da textura da casquinha rachando. Não acredito que passei tanto tempo distante dessa iguaria; perdemos 22 anos de amor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sobre o mês em que o Google me sugou

Aparentemente todo ser humano consciente sabe que uma das regras primordiais da internet é que não se entra no google para pesquisar sobre problemas de saúde. Eu me julgava coerente. Me julgava sã. Até o dia que resolvi pesquisar uma bobeirinha relacionada a isso e o google me sugou.

Se tenho vergonha de contar? Nenhuma. Vai que serve pra alguém que também esteja no vórtice errado, né? Então. Eu joguei “dor nas costas” no google. E descobri que, muito além do peso da minha bolsa dia após dia ou a falha na postura, eu poderia estar com câncer de pulmão. Ou quem sabe, nos ossos, mas esse eu consegui descartar porque aparentemente só se tem câncer nos ossos na infância. Fui no ortopedista tremendo de medo pensando que ele ia me internar direto. Ele disse que era dor muscular e me passou alongamentos.

Pensam que eu me contentei? Óbvio que não. Viciei na história e comecei a jogar a mãe no google. Comecei a ficar tão maluca que fui parar no ofalmologista (pra escutar que minha visão e todos os meus exames oculares estão mais que perfeitos, graças a Deus) e quase desmaiei de medo dentro de casa quando minha irmã falou que eu tava com roxos a mais que o normal. Eu sou estabanada e vivo roxa. Nunca me importei com isso, mas nas atuais circunstâncias, certamente era treta. Podia ser falta de vitamina K. Podia ser anemia. Podia ser leucemia. E eu deixei o pânico tomar conta de mim.

E eu descobri qual é a do google. Ele é o Datena. Ele te assusta tanto e te oferece tantas possibilidades de treta (se não for uma doença, certamente é aquela outra ali) que você perde o prumo e chega num nível que tem certeza absoluta de que alguma coisa você tem; que não tem chance nenhuma de você ser… saudável.

Eu descobri que existem dois tipos de pavores na vida. Eu tenho um primeiro pavor, que é o de agulha. Fujo de exame de sangue igual o diabo da cruz. E eu conheci o segundo pavor: o medo de ter alguma coisa séria, que colocou o primeiro no chinelo e me fez decidir fazer um exame de sangue por minha conta em risco, sem ordem médica nenhuma, só para saber o que de tão errado andava correndo nas minhas veias.

Eu não tenho nada. E eu estou tão, tão feliz. Nunca mais na vida eu entro no google. É um compromisso com a minha sanidade. Eu se fosse vocês faria exatamente o mesmo. Grata pela atenção.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Já pode acabar

Pode ser que isso sempre tenha acontecido e eu só esteja reparando agora. Ou pode ser que realmente esteja mais forte dessa vez. O fato é que nunca antes na história dessa minha vida eu ouvi e li tanta guerra e trocação de farpas a respeito de uma eleição.

Parece que as pessoas estavam aguardando quietas nos cantinhos, loucas para arranjarem um motivo para se odiarem. Aí então a guerra começou no primeiro turno e foi só chegarmos na tão já conhecida batalha PSDB+PT que o troço pegou fogo e tá indo bomba pra tudo quanto é lado.

No facebook, confesso, nem sei mais porque entro. Não aguento mais os avatares politizados, não aguento mais vídeos de um, vídeos de outro, não aguento mais campanha dissimulada e discurso de ódio. Por favor, gente, vocês nem estão recebendo para colocarem a mão no fogo publicamente pelo candidato de vocês. E querem ler a opinião de alguém que não confia em nenhum dos dois e vai votar no que acha menos pior? Se não quiserem ler não tem problema, vou falar mesmo assim: continuem colocando a mão no fogo e vão se queimar bem feio.

A idolatria por um dos lados me faz pensar que o mocinho só fez milagres por Minas Gerais – que não o elegeu. A fixação pelo outro lado me faz acreditar que realmente aquela confusão em junho do ano passado era realmente só pelos 20 centavos – como podia estar todo mundo arretado com o governo e de repente defender apaixonadamente a presidente dele? Não entendo. Não entendo essa paixão avassaladora de nenhum dos dois lados. Eles não valem nossa sanidade mental.

No início me preocupei horrores, tentei me envolver mais, li sobre os dois, fiz pesquisa e dou a cara pra bater aqui afirmando que, nobremente ou não, cansei. Cansei porque estava prestes a ficar doida. Cansei porque não aguentava mais me envolver em discussão e baixaria. Cansei porque parece que as pessoas não querem votar consciente – querem tacar pedras na escolha do outro, falar mal do candidato do outro, chamar de imbecil quem vota no outro e coisas do tipo. De um modo ou de outro, estamos em uma democracia. O dia 26 vai chegar, vamos votar, as urnas vão nomear um ~campeão~, o povo vai xingar mais uma semana e uns 10 dias depois o facebook vai voltar a se encher de mensagens de “bom dia” com florezinhas piscando. Não vejo a hora.

- Nesse texto você leu que: Estou de saco cheio dos discursos de ódio e trocação de farpas nas redes sociais.
- Nesse texto você NÃO leu que: Estou defendendo um dos dois. Estou criticando um dos dois. Estou botando o dedo na cara de você que vota em um ou em outro. Estou dizendo que meu voto não é consciente. Estou largando mão do Brasil.
- Portanto: Se vier discursar contra ou a favor de um ou de outro na minha caixa de comentários eu vou mandar passear, vou logo avisando. Se na rede social tem democracia, aqui quem manda sou eu e não quero saber de politicagem no meu canto. Obrigada.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Cocadas, palhaços e agulhas

“O que seria do azul se todos gostássemos do amarelo?” Repetia a minha tia, sempre que eu e minha irmã cismávamos em perder horas a fio com alguma discussão infundada que nascia na preferência de uma sobre alguma coisa que a outra não gostava.  Não é novidade para ninguém que as pessoas são diferentes e, mesmo assim, o ser humano vive caindo na besteira de se apavorar frente a escolhas/ações bestas de outrem que sejam completamente diferentes das dele.

Minha avó faz uma cocada divina. E não que eu não goste da cocada hoje (gosto sim e como muitas) mas é que quando eu era criança a minha relação com a cocada era praticamente transcendental. Eu olhava para o pote e chorava de amor. A hora da sobremesa era sempre a melhor do dia, quando eu podia, finalmente, sentar com um prato e comer quantas cocadas eu quisesse. Só que eu sempre fui uma pessoa que pensa muito mais do que devia, de modo que minha tranquila vida infantil de comedora de cocadas mudou rapidamente para um inferno mental quando uma das minhas primas disse que odiava cocada.

Eu me lembro nitidamente de estar sentada com um prato de cocadas na mão, a testa toda enrugada, mastigando a iguaria e matutando por minutos a fio how on hell alguém podia simplesmente odiar cocada? Aquilo era a melhor coisa do mundo.

Pensava, pensava, pensava e não chegava a conclusão nenhuma, de modo que a teoria que mais me pareceu coesa no momento era que as coisas tinham gostos diferentes para as pessoas. Imaginei que, judiação, para a minha prima, de certo a cocada tinha gosto de brócolis. Eca. E concluí: dei muita sorte, para mim a cocada tem gosto de cocada mesmo.

Vejam bem, foi mais fácil assumir para a Analu de 8 anos que a cocada e o brócolis trocavam de gosto para algumas pessoas do que simplesmente aceitar que, olha só que coisa, tinha gente que não gostava do gosto (tão maravilhoso!) da cocada. Da cocada da vovó, ainda por cima, poxa vida.

Dou risada sozinha só de lembrar dessa filosofia de boteco toda que eu martelava na minha cabeça só porque alguém não gostava de cocada, mas o fato é que por mais que tentemos assumir que as pessoas são simplesmente diferentes e pronto, tem sempre algum detalhe que nos deixa chocados. Principalmente quando as pessoas desgostam das nossas coisas favoritas ou... quando falamos de medo.

Minha prima não gosta de cocada. A Taryne odiou “As travessuras da menina má”. A Anna tem birra com Imagine Dragons. Minha irmã morre de medo de avião e eu já conheci uma menina que tinha pavor absoluto de palhaços. Uma adulta, tá? Eu conto.

Uma vez, no festival de Teatro infantil da escola, montamos uma decoração enorme e colorida no foyer... cheinha de palhaços. Eles eram muitos. Pequenos e grandes, mais ou menos vintage, alguns mais coloridos que outros. Toda hora que eu passava lá eu parava para ver como tinha ficado fofo. Até o dia que vi uma aluna de 18 anos passar chorando e de olhos fechados por ali, enquanto tudo o que queria era o direito de ir até a cantina sem se deparar com 81273 palhacinhos na sua frente. Acho justo, acho que cada um tem seus medos, mas absolutamente não consigo entender.

Assim devem ter se sentido todas as pessoas que me presenciaram, mesmo que rapidamente, ontem, no laboratório, onde eu estava para fazer exame de sangue. Aquele ambiente inóspito, branco e com cheiro de álcool. As pessoas chegavam, pegavam senha, faziam o cadastro, sentavam na sala de espera com uma revista, entravam na sala ao ouvir seus nomes e saíam tranquilas e leves, com o braço esticado normalmente, e pegavam um cafezinho.

Eu não tinha dormido à noite. Me encolhia na cadeira enquanto minha mãe pegava a senha. Não tinha levado NEM CELULAR comigo, porque, vejam, sabia muito bem que não conseguiria fazer absolutamente nada na sala de espera além de olhar para o além e rezar para demorarem a chamar meu nome. Quando me chamaram caminhei chorando até a sala, um choro legítimo, de quem está realmente se trancando de tanto medo, agarrada no braço da minha mãe. Deitei na maca (sim, porque não tiro sangue sentada jamais) e me encolhi de chorar. A enfermeira, tranquila, veio com o torniquete pra cima de mim e eu tirei o braço soluçando. Ela disse que não estava fazendo nada, nem agulha na mão ela tinha. Pedi para chamarem outra pessoa para segurar o meu braço enquanto ela fazia o serviço, senão eu ia tirar. Ela, ainda tranquilíssima, disse que dava conta sozinha e assim foi. Minha mãe segurava minha cabeça, eu botei música no ouvido, fiquei olhando para o teto, e só de lembrar daquela agulha no meu braço eu choro em cima do teclado. Alguém aí que não tem medo de agulha pode até aceitar, mas absolutamente não vai entender.

O choro da menina em relação aos palhaços foi dolorido igual ao meu com relação às agulhas. A minha irmã absolutamente não entende como eu posso entrar no avião sem medo nenhum. Eu tenho uma prima, repito, que não gosta de cocadas. E conheço até, pasmem, muita gente que não gosta de ler. Pensar naquele clichê de “como as pessoas são diferentes” nunca vai parar de me deixar intrigadíssima – e maravilhada, ao mesmo tempo. E não necessariamente nessa ordem.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ganhamos, mas perdemos

Desde que a euforia do jogo passado passou, por volta de domingo à noite, que eu estava tentando esconder de mim mesma o medo terrível que eu estava de, pela terceira vez seguida, ser eliminada nas quartas de final.

Engraçado que, um pouquinho antes da bola rolar no campo, eu acalmei. Assisti ao começo de jogo limpa e leve. Quando o Brasil fez o primeiro gol eu acreditei que estava ganho, tentando apagar da mente a tal ideia do jogo só acabar quando terminar. Depois do gol da Colômbia eu confesso que ameacei perder o prumo. Por outro sufoco de prorrogação nós não merecíamos passar, pensei. Antes tivéssemos merecido.

Ganhamos. Ganhamos no tempo normal, embora o juíz tenha dado os cinco minutos de acréscimos ~mais longos da minha vida~ #copadrammaqueen.. Ganhamos e eu comemorei mesmo confessando que antes de comemorar essa vitória eu já estava chorando de medo da seminfinal contra a Alemanha. Aprendamos a aproveitar o presente. Ganhamos! Ganhamos e eu me emocionei com David Luiz, aquele maravilhoso, trocando de camisa com o Jamez. 

Consolidada a vitória, joguei futebol no corredor com meus priminhos e ganhei de 8 a 4. Decidi acabar com a bagunça antes de derrubarmos um quadro e a coisa ficar preta. Mal desconfiava eu que meu aperto no peito queria dizer que a coisa já estava preta.

"Neymar está fraturado e fora da Copa", disse minha mãe enfiando a cabeça no quarto, como quem diz que está indo na padaria porque o queijo acabou. As palavras "Neymar" "Fraturado" "Fora" e "Copa" não podiam habitar o mesmo parágrafo. Muito menos a mesma frase. Mas estão habitando e, embora eu não queria acreditar, temos que lidar com os fatos.

Vamos jogar as semifinais contra a Alemanha. Sim. Jogaremos sem Neymar e sem Thiago contra Muller e Podolski. Se perdemos a esperança? Não, não perdemos. Mas perdemos uma boa parte de nosso brilho. Acho que fico mais triste de imaginar que jogaremos uma final sem nosso craque do que qualquer outra coisa. Se espero que ganhemos? Espero. Mas espero que ele entre em campo pra levantar a taça. Ele não é nem nunca foi meu favorito (David, Thiago e Julio, confio em vocês), mas merecia estar ali. Força, Neymar. Agora a gente tem que jogar pra você. Nunca pensei que podia existir uma vitória tão amarga. 

Joga pra ele, Brasil

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Te passei Copa

Já falei nesse blog algumas vezes sobre como eu acho que a paixão é um troço sensacional. De toda essa blogosfera cheia de textos bacanas, de longe os que mais gosto de ler são aqueles apaixonados: por uma banda, por um livro, por um hobbie, por uma pessoa. O efeito que a paixão causa em quem a sente é sensacional, e por isso mesmo não deixa de ser interessante para quem lida com pessoas apaixonadas.

Uma vez eu li um texto que dizia que a gente só deve se apaixonar por uma pessoa cheia de paixões próprias, e eu achei brilhante. Cada pessoa é, realmente, um universo, e é isso que é divertido. Compartilhar paixões.

E eu pensei em escrever isso e deixar registrado nessa semana de crônicas da Copa porque eu assisti o tão falado jogo Brasil X Chile com 3 amigas e garanto-lhes que duas dentre elas, no início da Copa, mal queriam saber do assunto. Milena já tinha dito, inclusive, que Copa para ela era como os dias de chuva em Cuiabá: como ela mora no Rio, não podia se importar menos com as alterações pluviométricas do Mato Grosso e era exatamente assim que se sentia a respeito do mundial. Giu tinha ficado com estafa do assunto depois de tanta polêmica em torno dele. O fato é que nenhuma delas estava se importando com os homens correndo atrás da bola até que, no dia das oitavas de final, estavam de pé, comigo e com Paloma (que já era entusiasta do assunto desde o início, como eu), enrolada na bandeira do Brasil no meio de uma lanchonete, rezando para a bola balançar a rede.

Paixão é vírus, gente. Do bom. Não tem outra explicação. Só gente apaixonada consegue motivar os outros e da mesma forma que já li livros só porque alguém apaixonado me indicou e ouvi músicas só porque algum outro apaixonado me deu um toque, elas só estavam ali pulando GOL de mãos dadas porque eu passei um pouco de Copa para elas. Achei divertido. Venhamos e convenhamos, passar paixão é muito melhor que passar gripe.

torcida
Isso muda o jogo

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Se eu fosse o técnico

Na Copa de 2006 minha amiga dizia que torcia para a Inglaterra só por causa do Beckhan. Achei que torcer para outro país só porque o jogador era gato seria demais para mim, mas não deixei de querer pagar de descolada e "assistir" a Inglaterra jogar só para ficar de olho no moço. Mesmo assim, lembro de lances onde eu estava sentada no sofá, dizia que o Beckhan era lindo por 2 segundos e voltava a ler meu gibi. "Não troque de canal, estou assistindo" eu dizia. A-ham.

Para essa Copa eu achava que estava com o mesmo ânimo que para as outras: Eba, vai ter Copa, vai ter folia, vai ter Gol. Achei que ia sentar para ver os jogos do Brasil e que ia ficar tudo bem. No entanto, como vocês já perceberam, viciei nessa Copa de uma maneira que possivelmente nem Freud explique, estou assistindo tudo o que posso e, inclusive, aproveito mais os jogos que não são do Brasil. Pimenta nos olhos dos outros é refresco e possibilidade dos outros perderem e continuarmos lindos e classificados também é um refresco gigante. Tudo bem a Grécia ir para os pênaltis, tudo bem a Bélgica se virar na prorrogação. Nada bem o Brasil indo para pênaltis e meu coração entrando em colapso. Tem jogo do Brasil sexta-feira e desde segunda-feira que eu martelo esse fato na minha cabeça sem conseguir relaxar. Minha vida era feliz quando eu não era envolvida com essa brincadeira de Copa, mas tudo bem, não foi disso que eu vim falar.

Vim falar que então, eu ando assistindo muita coisa, levei meu álbum (sim) super a sério e coisa e tal. Com tudo isso, confesso, ando aproveitando horrores as beldades que o mundial anda colocando na minha televisão principalmente aquelas vestidas com uniforme da Puma. Pensando nisso, vasculhando meu álbum e lembrando que quando a Espanha foi desclassificada eu fiquei boladíssima por ter que dar adeus a Jordi Alba, decidi montar o time com meus 11 favoritos. Não dá para levar totalmente a sério uma semana inteira de posts sobre a Copa. Decidi que eu também sou filha de Deus e que posso brincar de objetificar homens por pelo menos um texto.

Para começo de conversa, quero deixar claro que não levei em conta atacantes/zagueiros/centro-avantes/volantes e posições do gênero porque ia dar trabalho demais. Tentei escolher apenas 1 goleiro entre eles mas não consegui, módique vocês podem e devem ignorar táticas de jogo e focar no fato de que o time foi montado pelo meu útero (pedreira) e não pela minha cabeça. E sim, eu sei que muita gente na internet já deve ter feito lista com os mais gatos da Copa, mas tô nem aí e quis brincar disso também. Não está em ordem nenhuma, muito menos de preferência, porque já foi difícil escolher só 11, imagina elencar. Vamos lá.

  • Miguel Veloso, Portugal. Confesso que nem tinha percebido esse ser humano enquanto figurinhas eu colava, mas foi só o bichinho dar as caras no primeiro jogo de Portugal para eu ficar abobalhada com tamanha saúde e me oferecer de coração para consolá-lo após à goleada que eles tomaram. Às vezes faz umas escolhas erradas de penteado, mas acho que podemos ignorar esse detalhe e focar na barba, no sorriso e nos braços. Eu casaria com Miguelzinho em um campo de futebol.
  • Thomas Müller, Alemanha. Se me mandassem imaginar um Alemão, eu certamente imaginaria Thomas Müller, exatamente como ele é. O moço é desengonçado, o cabelo dele fica todo desmantelado quando ele sua, ele tem um sorriso todo torto e mal diagramado e certamente passa o domingo de bermudas com meião até o joelho e um tênis esquisito. Sem ser nenhuma Brastemp, Thomas é certamente a Eletrolux que mais conquistou corações nessa Copa. Difícil ver esse homem sem seu sorriso errado no rosto ou sofrendo legitimamente por uma bola que não entra. Roubou meu coração quando, ao levar uma cabeçada do absurdo do Pepe no jogo de estreia, fez a maior cara de perdido do século, que me pareceu ter o seguinte subtexto: "Credo, que que é isso, tão me batendo, que gente ruim". Müller é todo esquisitinho. E por isso mesmo dá vontade de pegar ele no colo. 
  • Robin Van Persie, Holanda. Esse aqui certamente é unanimidade. Não encontrei uma alma feminina no twitter que, durante algum jogo da Holanda, não tivesse comentado sobre ele. O homem tem um sorriso maravilhoso, um corpão, e um cabelo rajado de grisalho que esbanja classe e seriedade. Na triste derrota do México, a única coisa que me consolou foi que eu continuaria tendo Van Persie na minha televisão por pelo menos mais 90 minutos. Morrerei de saudades de tamanha ostentação de beleza. 
  • Álvaro Rafael González, Uruguai. Fiquei profundamente decepcionada comigo mesma por só ter descoberto González no último jogo do Uruguai, quando apenas assisti ao moço voltando para casa. Foi um encontro muito rápido, o nosso, mas não deixa de ter sido marcante. Amores de Copa vem e vão, são aves de verão, já disse o sábio twitter. Além da barba e do olhar marcante, menino González contava com o advento do uniforme da Puma. Preciso dizer mais nada, né? 
  • Cláudio Marchisio, Itália. Imagino que seja outra unanimidade, porque não se ouve falar de Itália sem ouvir falar de Marchisio e olha que a Itália nos fornece infinitas possibilidades de paixonite aguda. Em uma seleção que conta com nomes como Rossi e Buffon, elejo Marchisio como meu favorito e reitero que sinto profundas saudades desse elenco que iluminou meus olhos por apenas três jogos (mesmo ficando aliviada de eles não terem a chance do Penta). 
  • JUUUUUUUliocesar, Brasil. Piadas a parte, o grito de Galvão Bueno no jogo contra o Chile é meu bordão favorito dessa Copa. Na falta de gritos de gol, nosso chato e empolgado narrador aproveitou para narrar um não-gol do Chile cantando o nome de nosso goleiro como se um aclamado gol ele fosse. Sempre confiei e amei Júlio César, mas terminei o exausto jogo de sábado ainda mais apaixonada por ele. Amo seu formato de rosto, seu olhar, sua entrega, e até o choro de garra que aconteceu enquanto ele defendia os pênaltis. Vai que é tua, Júlio!
  • Niko Krajcar, Croácia. Moço Niko fez o maior sucesso na internet após ser fotografado no banco da Croácia no primeiro jogo. No meu caso, digo que foi paixão à primeira vista ou, para formular melhor, à primeira figurinha. Desde o dia que tirei a figurinha deste ser humano do meu pacotinho que pensei que o mundo estava mais lindo com sua presença. Niko é tão bonito, mas tão bonito que eu juro que nem sei o que comentar sobre o assunto. 
  • Jordi Alba, Espanha. Quem me falou desse moço foi a dona Paloma. Enquanto todo mundo pirava com a seleção da Itália no álbum de figurinhas, essa sensata menina mandou que eu fosse prestar mais atenção na Espanha que não somente contava com Xabi Alonso e Gerard Piqué, mas com Jordi Alba. Alba me encantou, também, na primeira figurinha e vê-lo em campo só me deixou chateada por notar que a Espanha tomaria um cacete e sairia, zonza, na primeira fase. Um ano é da caça, outro do caçador, realmente. Mas Jordi bem que podia ter ficado um pouquinho mais de tempo.
  • James Rodriguez, Colômbia. Confesso que estou ansiosa para ver o moço chorar na noite de sexta-feira após perder do Brasil. Mesmo assim, não posso deixar de citar o então artilheiro da Copa que de tão novinho parece um neném e tem um dos sorrisos mais meigos dentre essa macharada toda. 
  • Sokratis Papastathopoulos, Grécia. Precisei abrir o google no mínimo 3 vezes para conferir se estava escrevendo direito esse sobrenome, mas cartórios à parte, moço Sokratis tem uma garra para jogar e um olhar tão lindo que me encantou, principalmente quando eu descobri que ele tinha marcado seu próprio casamento para o dia em que possivelmente a Grécia jogaria as quartas de final. Okay que não é nada romântico não acreditar na própria seleção, e fosse eu a noiva estaria em cólicas, mas achei isso tão lindo e atrapalhado (?) que me apaixonei. Me deixem.
  • Gonzalo Higuaín, Argentina. Óbvio que é contra os meus princípios torcer para a Argentina, mas não tinha nada escrito no contrato que me impedisse de me apaixonar por alguns deles. Para começo de conversa, os sobrenomes argentinos são bonitos demais. Eu assinaria Rojo, Aguero, Romero, Messi e Higuaín sem pensar duas vezes. Além de agregar valor ao cartório, Gonzalo ainda faz meus olhos se emocionarem com tamanha beleza. Alguma coisa no jogo da Argentina tem que valer a pena. 
  • Guillermo Ochoa, México. Outro menino de nome chique e, tudo bem que eu passaria horas tentando convencê-lo a cortar esse cabelinho desnecessário, mas o fato é que foi Ochoa que me impediu de seguir minha regra inicial de escolher um goleiro só. Não só ficou famoso por ser um verdadeiro muro dentro do gol, Ochoa encantou meu coração e sinto pena dele até agora pelo pênalti holandês que ele não conseguiu pegar. Minha torcida era toda sua, seu lindo. 
Talvez vocês não tenham percebido o lapso, mas eu pensei, pensei, pensei, achei que tinha fechado em 11, sofri por deixar o lindo goleiro Karnesis de fora e, ainda assim, depois de escrever tudo, contei e percebi que tinha escolhido 12 nomes. Deixamos o Ochoa na reserva do gol então e tá tudo certo, a gente faz de conta que ninguém percebeu o ato falho. Um beijo para vocês.

Esse post teve patrocínio de


terça-feira, 1 de julho de 2014

Só acaba quando termina,

diz meu pai desde que me conheço por gente. Acho que a lembrança mais remota que tenho dessa frase é de uma vez em que estávamos no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, assistindo algum jogo da Liga Mundial de vôlei, e eu dizia, no meio do primeiro set, que o Brasil já tinha ganhado. Lá vinha meu pai, com uma voz lenta, arrastada e bem mais sensata que a minha, repetir: Caaaaaaalma. O jogo só acaba quando termina. No caso do futebol, sei que, ao comemorar antes da hora, ainda posso contar com um sonoro: Caaaaaalma. Só acaba quando o juiz apita.

Acho que a minha memória mais impactante em relação a essa fato foi nas Olimpíadas de 2012. Não sei se vocês lembram, mas estávamos perdendo o jogo de vôlei por 2 a 1. Era só as (russas?) fecharem mais um set e pronto, levavam o ouro para casa. Elas fizeram 24 pontos, minha gente. 24. Faltava UM mísero ponto, que era só fazer sacando muito bem ou deixando o Brasil mandar uma bola para fora. UM mísero ponto que elas nunca conseguiram fazer, porque viramos o jogo, ganhamos o set e os próximos dois. Acho que foi a melhor conquista de ouro que já assisti. Oso oso oso de virada é mais gostoso. Vamos combinar que prefiro não passar pelo desespero de ter que virar um jogo, mas que é mais comemorado, isso é. 

O jogo só acaba quando termina. Foi inevitável escutar a voz do meu pai na minha mente, lenta e arrastada, quando saí para almoçar desligando México e Holanda, a 15 minutos do jogo acabar, confiando minha alma no Ochoa e feliz da vida porque alguém ia tirar a Holanda antes que fôssemos obrigados a brincar disso. Óbvio que abri o twitter enquanto estávamos no carro, para poder acompanhar o finzinho da derrota holandesa e só sei que de repente eu falei: Gente, a Holanda empatou.

Faltavam CINCO minutos para o fim do jogo. CINCO. E antes mesmo de eu me preparar psicologicamente para uma prorrogação fui obrigada a descobrir que o México tinha cometido um pênalti e que o Ochoa não tinha conseguido pegar a bola. A essas alturas, eram DOIS os minutos restantes. DOIS minutos restantes e a Holanda me ganha o jogo sem nem me dar de presente uma prorrogaçãozinha para eu ter esperança. Só de lembrar meu coração se parte em cacos.

Se merricana eu fosse, até agora eu estaria sentada na frente da televisão em estado de choque absoluto. Se merricana eu fosse, nunca mais esqueceria que o jogo só acaba quando termina, e se alguém viesse me falar essa frase eu juro que lhe daria um soco na cara. Sendo eu brasileira e já tendo sofrido mais do que devia com a súbita derrota alheia, vou focar nessa palhaçada dessa frase e só vou relaxar quando o juiz fizer o favor de apitar nossa vitória, aos 45 do segundo tempo, sem prorrogação e pênaltis, porque para dois jogos seguidos eu JURO que não tenho estrutura. E tenho menos estrutura ainda para perder um jogo aos 47 do segundo tempo. Vocês se emendem.

É disso que o meu povo gosta

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Brasil X Chile, 28 de junho, eu sobrevivi

Eu falei que não ia mais tentar me controlar e não vou. Principalmente não depois de sábado. Porque algo sobre sábado está entalado na minha garganta (rouca) desde que saí na rua com a bandeira enrolada no pescoço e porque minhas dores musculares não me deixam negar que aquele jogo me atropelou como um caminhão.

No meu post passado, onde eu relatei que nos outros 3 anos e 11 meses onde não existe Copa eu não consigo entender direito a paixão das pessoas pelo futebol, minha amiga brilhantemente comentou que a magia é toda essa, porque para a paixão não existe explicação nenhuma. Achei um comentário bonito e sincero, mas nada que mudasse a minha vida. Pelo menos não até sábado, quando olhei aqueles goleiros, em câmera lenta, se dirigindo para o gol como quem se dirige para a forca.

Eu assisti ao jogo em uma lanchonete bem bacana aqui de Curitiba. Eu e minhas amigas chegamos tarde: devia faltar uma meia hora para o jogo só. Obviamente não conseguimos mesa, o que, acho eu, foi até melhor: assistimos no balcão do bar da fila de espera, NA FRENTE da televisão. Perdi a conta de quantas vezes ajoelhei na banqueta e soquei aquele balcão. Mas nada se comparou ao momento dos pênaltis.

Juro que, até agora não sei como, pelo menos ali na área do bar só estávamos eu e minhas amigas (Mimi, Giu e Palo) em pé. Não sei que tipo de torcedor tem sangue frio o suficiente para assistir sentado a uma disputa de pênaltis, mas só sei que eu estava enrolada na bandeira, de mãos dadas com minhas amigas, como se a minha vida dependesse daquela bola entrar naquele gol. E foi ali, naquela caminhada lenta dos goleiros até o gol que eu entendi tudo o que a Anna quis dizer naquele comentário anterior.

Tive uma epifania rápida e não pude deixar de rir de mim mesma. Pensei: "Engraçado pensar que daqui a 10 minutos estaremos classificados ou eliminados. Simples assim. Ou estaremos muito felizes ou muito tristes. E...? Gente, é um campeonato, que engraçado pensar em como isso mexe com a gente. É só uma bola. São só 11 homens jogando. Não vai mudar absolutamente nada prático na minha vida aquela bola entrar no gol e mesmo assim, meu Deus, não consigo deixar de rezar para que ela entre ali, balance aquela rede e me dê uma classificação." E era isso. Não existe lógica nenhuma, e acho que eu entendi que, quanto menos lógica tiver, melhor fica. Porque emoção não tem que ter lógica. Um grito de gol não tem que ter nenhum sentido. 

Eu estava posicionada de frente para a cozinha do bar. Por uma janela, ao lado de nossa televisão, podíamos ver tudo o que rolava na cozinha. E foi nesse momento que eu olhei para lá e percebi que a cozinheira comemorava o pênalti antes de mim. Claro! A televisão deles era com sinal analógico, tudo acontecia segundos antes! E foi assim que, enquanto na nossa televisão o Sanchez se posicionava para bater, que ela cornetou quase chorando e eu comecei a pular junto. Antes dele chutar. Antes daquela bola bater na trave.  E foi só ali que eu descobri que eu tava com o corpo inteiro duro há mais ou menos 20 minutos.

Hoje já é segunda feira. Eu tenho pouquíssima voz. Meu ombro e minha barriga doem como se eu tivesse passado o fim de semana fazendo abdominais. Esse jogo me atropelou como um caminhão desgovernadíssimo. E desde que aquela bola chilena não entrou que eu não consigo deixar de sorrir. Não tem a menor lógica. E essa é a exatamente a magia. Vamos para as quartas, Brasil! Joga para mim! 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Da prosa e poesia dos meus vidros

Meu quarto tem um espelho grande. Uma janela com dois vidros. 3 murais de foto feitos de vidro e 5 portas de armário (vejam só: de vidro!). Era tudo muito transparente e puro até que eu comprei canetas para escrever neles.

Achei que escreveria e desenharia para sempre, mas sou apegada. Escrevi quando comprei e nunca mais apaguei. No espelho tem meu trecho favorito de Florbela Espanca, já meio apagado pelo tempo. Mesmo assim, toda hora que eu me encaro no espelho ele me grita que eu devo saber me perder pra me encontrar.

Em uma das portas do armário tem, inteirinho, o Soneto da Fidelidade, de Vinícius. Que seja infinito enquanto dure. Ainda nessa mesma porta, Cazuza em dois trechos. Um de “Preciso dizer que te amo”. O outro que diz que seu amor é uma mentira que a minha vaidade quer.

Na porta do lado, Camões, insistindo e dizer que amor é dor que desatina sem doer. Na terceira porta, um coração, que minha prima desenhou em nome do meu afilhado, dizendo que me ama e que aquela porta é dele.

Na quarta porta, um desenho lindo da Couth, bobeirinhas que minha irmã escreveu, um trecho de John Green e um de Taylor Swift, todos falando de amor. A outra porta é dos amigos, e cada um rabisca o que quer. Na janela tinha Legião, mas o suor da chuva derreteu tudo, e eu coloquei Clarice Falcão no lugar pra minha janela se perguntar no meu lugar se nesse filme de romance vai ter beijo no final.

Não só virou base para as minhas quotes poéticas, meu quarto virou playground. Meus priminhos, que já curtiam o ambiente, o tem como o cômodo mais legal do universo, onde eles podem rabiscar o armário com canetas. Geralmente eles vem, fazem uns desenhos, uns rabiscos, eu delimito a área e depois taco álcool na bagunça e fica tudo bem.

Da última vez eu não prestei atenção. Mas além do coração com meu nome dentro e da bonequinha que eu não quis apagar, eles rabiscaram Cazuza, Taylor Swift e o mantra da máfia. Talvez tenha que ser assim. Talvez a gente tenha que ver o que fica, mesmo debaixo da bagunça, depois que os furacões passam.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Felicidade, felicidade, abra as asas sobre nós!

Abuso de uma paráfrase de Dudu Nobre para intitular mais que essa crônica, e sim, a visão que tenho da minha geração. Uma vez li em um texto que a minha geração só será adulta aos 30 e concordei sorrindo e balançando a cabeça, aliviada: Ufa, então não sou só eu que não me sinto adulta.

Logo depois veio Neil Gaiman me dizendo que ninguém é adulto de verdade. Juntei esses dois “dados” e comecei a matutar que a maioria das pessoas que conheço por volta dos 20 e poucos anos está no mesmo barco que eu: O da adolescência.

E não digo que é imaturidade não. A gente tá se formando na faculdade, trabalha, pensa num mundo melhor. Mas ainda não viramos adultos. Veja a geração de nossos pais: Aos 20 anos eram todos casados ou a beira de. Trabalhavam em grandes empresas e tinham filhos no colo. Hoje, a maioria esmagadora dos meus amigos vive na casa dos pais e usa o salário pra pagar livros e netflix. E isso não é uma crítica, é apenas uma constatação. Os tempos mudam. E isso não é necessariamente ruim.

Minha humilde conclusão: Há quem diga que nossa geração é recheada de cucas frescas. Não acho. Acho que a nossa geração é a que busca pela felicidade. Clama por ela, grita por ela. E isso traz tanta responsabilidade e dor de cabeça quanto a outra, que lutava para ser alguém na vida e ter uma grande carreira. No fim das contas, não é que não somos adultos. É que nossa maneira de ser é simplesmente diferente do que estamos acostumados a chamar de adultos.

A minha geração parece deveras mais existencialista que a geração de meus pais. Não os imagino passando noites em claro pensando na felicidade, nos valores de vida, na hipocrisia das pessoas, na nossa própria, e matutando essa vontade torturante de ser feliz. Parece que eles se preocupam mais com a vida objetiva, e a nossa é mais existencial. Repito: Nenhuma crítica a nenhum dos dois, apenas constatações puramente filosóficas.

Lembro que, quando eu estava no primeiro ano da faculdade, minha professora de “Arte, Estética e Comunicação” entrou na sala e disse que adorava lecionar para turmas de Jornalismo, porque todo mundo estava ali porque queria. Na sala de direito, metade levantava a mão dizendo que estavam ali por pressão dos pais.  “Pai nenhum em sã consciência põe pressão no filho pra ele fazer jornalismo! Eu fiz publicidade, mas o meu filho, ah, ele vai fazer direito”, disse ela, sorrindo e brincando, enquanto eu engolia em seco pensando que estava escolhendo por minha conta algo muito importante e poderia me ferrar só por querer ser feliz.

Hoje, recém formada e ensaiando a crise pós faculdade, percebo que eu fiz o que devia fazer. É o que me faz feliz, e se é o que me faz feliz, é o certo. Não me importa agora pensar em grandes carreiras, em muito dinheiro, em uma vida extremamente regrada e sólida. É óbvio que quero segurança na vida, mas penso na felicidade antes de pensar na segurança, e acho que esse é o ponto chave que difere as duas gerações.

E para quem continuar achando que felicidade é preocupação de gente que não tem mais preocupações, eu repito um diálogo que li uma vez em um blog que gosto muito. A mãe disse, ao ver o bebê recém nascido, que a única coisa que desejava para ele é que ele fosse feliz. E o pai, sabiamente, disse: Perceba que você está pedindo o mais difícil.

Ser alegre é fácil. Alegria depende de momento. Felicidade depende de toda a carga, de todo o contexto, de toda a inspiração que rege a vida. Felicidade não é supérfluo. É coisa séria. É a base da segurança. Se querem saber, acho que minha geração é privilegiada por focar em ser feliz. E repito, como em um mantra: Felicidade, felicidade, abra as asas sobre nós!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Uma crônica sobre a falta de uma crônica

Você está atolada naquela fase de vagas magras. Tenta se forçar a escrever e não consegue. Começa a ver o blog ficar às moscas, encontra uma teia de aranha aqui, outra ali, respira fundo e tenta esquecer o acontecido. Pensa nas pessoas cujos blogs sobreviveram mesmo passando meses no vazio de palavras e acha que o seu também sobreviverá.

Não consegue se conformar com esse presságio terrível e resolve se jogar, suicidamente, em conjunto com a amiga e mais algumas corajosas em mais uma maratona 7 dias 7 crônicas, que outrora deram tão certo que os sete temas apareceram na sua cabeça como num passe de mágica.

O primeiro dia vai no sufoco. O segundo dia vai se passando enquanto você acorda, trabalha e tem reuniões visualizando a página em branco e o tema que não vem. O dia passa e você procura o tema em cada segundo dele, inclusive no meio das compras de Natal. Quem sabe uma crônica sobre o quebra-cabeças novo! Ou sobre o presente do afilhado que tá difícil de encontrar. Melhor: Sobre o shopping lotado na segunda-feira! E não. Nada rende.

Você olha o relógio e vê que faltam réles 50 minutos para o dia acabar e que você precisa parir alguma coisa e postar nesse blog para não abandonar o barco no início do desafio. Se conforta ao ver que a amiga também não conseguiu postar a dela ainda. Sabe que, vindo de onde vem, aparecerá alguma genialidade naquele blog em 5 ou 10 minutos enquanto você, ainda sem tema nenhum, será obrigada a postar uma crônica sobre a falta de uma crônica, e, logo em seguida, tomar um banho para ver se esfria as ideias e consegue postar alguma coisa decente no terceiro dia. Aguardemos.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Dos fins, começos e meios

Tem aquele texto que diz que foi sábio quem decidiu dividir o tempo em anos para que as pessoas pudessem contá-los, renovar suas esperanças ao fim de cada período, e outras coisas do gênero. Eu, que outrora sempre fora uma apaixonada inveterada pelos tais fim de ano, ando-os achando dignos de estudo. Pelo menos em relação aos meus sentimentos com sua chegada.

Convencionemos que ele comece a aparecer em meados de outubro. Pipocam decorações de natal em tudo quanto é canto e eu começo a me desesperar: “Mas como assim Natal gente? Pelo amor, parem com isso, ainda estamos em outubro, não me assustem, ainda tenho tempo”.

No início de novembro, entro no desespero: “Dear God, realmente estamos no fim do ano e eu não fiz porcaria nenhuma que prestasse ou realizasse algum sonho”. Do meio para o fim de novembro, começa o período da resignação: “Ah, tudo bem, não realizei nenhum grande sonho, mas até que fiz um tantinho de coisas relevantes, né?”.

E eis que após esses dois meses de preliminares, dezembro chega e empurra a nossa porta. O tempo, que até aqui estava passando rápido, para de passar. Nunca os dias demoram tanto a passar como quando as férias estão para chegar e você já não aguenta mais uma gata pelo rabo. No meu caso, faltam 12 dias para as férias. 12 dias esses que parecem 50, tamanha quantidade de coisas a serem feitas até lá. Nessa temporada do ano, você já não lembra do que deixou de fazer, não se preocupa em pensar na resignação, tampouco no desespero. Você apenas se remói de cansaço e conta os segundos até que as férias cheguem.

E então chega o momento em que as férias são realidade, você passa, sei lá, os primeiros dois dias de pernas totalmente pro ar na certeza de que o dolce far niente é a melhor coisa que alguém podia ter inventado na vida. Aí vem a preparação da festa de Natal em si, a semana limbo que vem em seguida, a virada do ano, e como se por mágica, das 23h59 do dia 31 de dezembro para a meia noite em ponto do dia 1º de janeiro, some todo o cansaço, o desespero, a melancolia e a resignação: “Virou o ano, e agora sim, 365 dias para fazer coisas incríveis, tem muito tempo, esse ano eu consigo!”. No dia 2 de janeiro começa a ressaquinha de toda a esperança arrebatadora causada pelo dia 1º. Lá pelo dia 5, já deu tempo de se acostumar com o ano novo e lembrar que não é o passar do tempo que tem o poder de fazer milagres com a sua vida, e sim, você mesmo. E então você vai vivendo normalmente o seu ano até que chega outubro e o ciclo do fim-começo-meio te arrebata outra vez.

sábado, 10 de agosto de 2013

Bolo vivo

Tinha tempo que eu não ia em uma festa de 15 anos. A última foi em 2010, e foi ótima, por sinal. Participei do bolo vivo, dancei valsa ao som de UP e comemorei a madrugada toda com meus amigos. Há 3 anos atrás eu ainda era deveras adolescente.

Na verdade a gente nunca cresce. Na nossa cabeça, nunca somos adultos de verdade, penso eu. Mas vivemos recebendo indícios de que o tempo passa. E foi uma experiência antropológica engraçada analisar o terreno de uma festa de 15 anos quando você faz parte dos “adultos convidados”, e não do grupinho de BFFs da aniversariante.

A menina estava linda pra receber os convidados, de vestido sereia todo cheio de pedras, e um sorriso tímido no rosto. Daqueles de quem está até meio nervosa de ser o centro das atenções. Mais tarde, dançou valsa com um vestido lindo e engrenou numa coreografia de Street Dance, coisa que ela ama.

E ao redor, lá estavam todos eles, os adolescentes. As meninas desfilavam de salto alto pra lá e pra cá, achando o máximo se sentir tão glamorosas. Os meninos de terno e gravata, parecendo empresarinhos. Davam risada alto, passeavam todos pelo salão, tiravam fotos e descobriram a fonte da felicidade quando encontraram copinhos de chocolate com licor de amarula dentro.

Me diverti na pista de dança, mas fiquei meio perdida ao mesmo tempo. Saudades da época em que eu sabia as coreografias das músicas do momento. Me fartei em Macarena e naquelas outras coreografias antigas que continuam rolando, tipo “olha a onda, olha a onda”, mas quase enlouqueci tentando acompanhar o tal do “prepara” que Anitta inventou.

Não que eu seja muito adulta ou muito crescida, mas 3 anos fizeram uma mudança radical no grupo onde eu me insiro nas festas de 15 anos. Jantei. Não tirei os sapatos. Não fugi pro banheiro pra fofocar com uma amiga sobre algum babado do grupo. Mas fiquei observando curiosa a tudo isso acontecer. Ah, a linha do tempo da nossa vida.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Meu mundo caiu

Eu leio e escrevo muito, desde pequena. Não que isso seja algo extremamente relevante, mas no mínimo, serviu para fornecer um vasto repertório do uso da língua portuguesa. Sim, sou a maníaca da gramática. Não consigo conversar duas vezes por chat com quem escreve atrocidades. Me orgulho de mim mesma sempre que me pego, sem querer, falando uma palavra que acho bonita e não tão utilizável. E fico pra morrer com alguns erros que cismam em assolar a minha vida.

Eu tinha uma sinistra mania, que graças a Deus já perdi há uns bons 4 anos, de que ansiedade era com C. Sim. Eu pareço legal mas achava que ansiedade era com C. A patologia era tão grave que eu simplesmente não conseguia escrever ansiedade com S. Achava que não ornava, vejam bem. E sempre errava e me confundia, por escrever com S e achar que não, não poderia ser assim. Passei dessa fase e me encrenquei com os edredons. Cismei que o singular de edredom era com N no final. E nunca escrevia certo. Hoje em dia já estou me acostumando a usar o M.

São erros meus que eu conhecia, e que cuidava, relendo 10 vezes um texto antes de publicar, para pesca-los antes de passar vexame publicamente. Mas os casos mais graves são quando a gente simplesmente não faz ideia de que está errando, e segue usando a palavra por aí, no contexto completamente contrário, por mais de ano, e achando lindo.

E foi assim que ontem, no meio de uma tarde trivial, eu quis cavar um buraco e me enfiar dentro. O motivo? Meu chefe entrou na minha sala e disse que eu havia sido prolixa demais no meu texto. O que eu fiz? Aumentei-o. Pois é. Eu podia JURAR que prolixidade era conseguir ser concisa ao extremo. E até já tinha dito em um vídeo que a prolixidade não era uma de minhas qualidades, afinal de contas, falo por horas a fio sobre qualquer bobagem que me venha à cabeça. Quando aumentei o texto e ele veio perguntar o que eu queria com aquilo, eu quis morrer. E então ele me explicou o que era prolixidade e eu quis sumir. Porque eu jurava que sabia o que era. E agora meu chefe deve ter certeza de que meus livros não servem nem pra me ensinar a ter vocabulário. E eu tenho certeza de que ainda vou ter pesadelos com essa palavra ecoando na minha cabeça. Anos depois de começar a usar o termo, eu aprendi, no susto, que a tal da prolixidade é exatamente o contrário do que eu julgava ser. Realmente não tá fácil pra ninguém. Professor Pasquale ainda vai acabar me levando presa.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A mágica da hereditariedade

Todos os bebês do mundo são iguais e nascem com carinha de joelho. Menos os que circundam minha vida, é claro. Já dizia tão sabiamente o Pequeno Príncipe que antes de sermos cativados por uma pessoa, ela é apenas iguais às cem mil outras existentes. Aquelas outras, que ficam nos berçários com carinhas amassadas, e que são o mundo de outras pessoas, mas não o meu.

Meu afilhado poderia ser igual a esses outros cem mil bebezinhos amassados e com cara de joelho, mas não. Dei a maior sorte do mundo e ele era o neném mais lindo do berçário, é lógico. Tanto neném que tinha nascido e o “meu” era o mais incrível de todos. Porque ele tinha a bochechinha mais linda, o narizinho mais desenhado, e era, certamente, o que tinha mais graça poética pra piscar ou bocejar.

Quase 5 meses depois, pouca coisa mudou. Ele continua sendo o mais maravilhoso. E é mágico observar, nesse mundo de características maravilhosas e inteiramente deles, o que foi que ele saiu herdando de cada ser humano com quem é geneticamente relacionado. Não que alguém duvide que ele é a cópia exata do pai, é claro. Se tivesse, o Rico, sido concebido em laboratório, acusaria o Doutor de ter feito um clone do Guilherme, ao invés de uma fertilização in vitro. Não que tenha sido algo ruim, de forma alguma. Ricardo é perfeito, é claro. Ele tem o sorriso mais lindo, o olhar mais encantador, os pezinhos mais “bisnaguentos”, e a manchinha de nascença, uma das únicas coisas que puxou do nosso lado da família, foi dar de cair bem na canela, onde fica a minha. Aposto que ele fez de propósito, só pra deixar a madrinha ainda mais apaixonada por esse elo.

Enquanto ficamos parados admirando as características físicas que fazem nosso pequeno Rico ser uma criatura única no mundo, mas com tantas referências familiares, ele começou a crescer e mostrar a que veio, e faz questão de nos deixar ainda mais fascinados por essa coisa curiosa que é a tal da genética. Ontem encontrei o pequeno passeando com a mãe, no carrinho, na calçada do meu prédio. Chamei, beijei, cheirei a cabecinha, fiz umas micagens, ensaiei cantar a Galinha Pintadinha no meio da rua e nada. O menino nem tchum pra mim. Bianca ainda falou: “Filho, olha a dinda, filho!”, e ele nada. Resolvi seguir seus olhinhos e tentar descobrir o que diabos era tão mais interessante nessa vida que sua retardada madrinha, que fazia de tudo pra ganhar um olhar, e descobri: Os carros que estavam parados no sinal.

Isso seria algo trivial e nada digno de estudo ou observação, se excluíssemos o fato de que o pai da criança é completamente fissurado por automóveis! O tio da criança, quando tinha 1 ano e 8 meses, sabia dizer o nome e a marca do carro de todos os integrantes da família. Quando nasceu, Rico ganhou do avô um Mini Cooper, com marcha, volante e tudo, onde ele sentará quando ficar maiorzinho e algum adulto poderá controlar por controle remoto. Enfiei minha cabeça na frente da dele, e ele desviou para continuar olhando os carros. Resolvi recolher-me então à minha humilde insignificância e desistir do assunto. A mancha de nascença dele é toda minha, mas já entendi que não dá pra competir com os interesses geneticamente arraigados. Da Galinha Pintadinha, quem sabe um dia eu consiga ganhar. Dos carros já seria pedir demais.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Antes que o público se cansasse

Era fim de domingo e eu resolvi vencer a preguiça que costumeiramente me assola nesse momento da semana e sair de casa para ir ao teatro. Já tinha combinado há alguns dias com a minha amiga, e era o último dia que a peça ficaria em cartaz. Fomos.

A peça era bacana. Tinha “Poe” no título, advindo de Edgar Allan Poe, e eu, que nada li sobre o moço, já estava com medo de me assustar. Sim, sou dessas que anda na montanha russa mas não entra de jeito nenhum no trem fantasma. Entrei e lá estavam cérebros, pessoas sujas de sangue e ataques de zumbi.

Repito que a peça foi legal, mas não posso negar que a melhor parte do espetáculo foi o fim, que estava fora do script. Quando o público menos esperava, mas ainda antes de se cansar, o namorado de uma das atrizes levantou, se encaminhou até ela, ajoelhou e tirou uma caixinha do bolso. E é essa cena que vai ficar marcada em mim sobre esse domingo.

O povo adora falar por aí sobre fim de mundo, apocalipses zumbis, essas coisas. E essa cena linda que aconteceu ali só me confirmou o que eu já sabia: Realmente o amor é o que fica. Já sobrevivemos a tantos fins de mundo e nada. Enquanto isso, o amor continua ali. Quando aquele moço levantou e pediu a namorada em casamento, daquela forma, na frente do público, eu sorri de orelha a orelha. Analisei a cena e me emocionei de notar que a menina tremia tanto que nem lembrava em que dedo se usava a aliança. Ele ainda falou algo do tipo: Esse é o presente que eu tenho pra te dar após esse 5 cinco anos onde você foi o presente da minha vida.

Eu estava ali. Eu vi essa cena. Eu fui ver a peça no exato dia que deveria ter ido. Fui no dia que aconteceu o fim dos zumbis e prevaleceu o amor. Saí de casa esperando morrer de medo de Poe e saí apaixonada pela vida. Porque às vezes a vida faz muito sentido. Saí de casa pra assistir uma peça e o que acabei assistindo foi um filme de romance. E o mocinho beijou a menina na hora certa, muito antes do público se cansar.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Meus pais fizeram tudo errado

“Tudo é culpa da mãe”, costumam dizer por aí. Parece interessante e confortável, portanto, jogar nas costas dos progenitores tudo o que não funciona da forma que eu gostaria que funcionasse, em se tratando da minha existência. Cito como um exemplo trivial o fato de eu ter 21 anos e estar lutando bravamente para parar de roer as unhas. Tudo seria mais fácil se minha mãe tivesse colocado pimenta nos meus dedos quando eu tinha 4 anos e comecei a roê-las, mas não. Roídas elas vivem até hoje e é óbvio que isso não é culpa da minha falta de tomar tenência na vida, mas sim, da minha mãe, que não agiu enquanto era tempo.

Era mais ou menos em torno disso que meus pensamentos rondavam enquanto eu apanhava horrores em minha primeira aula de jazz, no fim do dia de ontem. Vejam bem: eu nunca tive os genes da dança. Culpa de quem? Dos meus pais, é claro, que não souberam unir as melhores características possíveis na hora de produzir a minha pessoa. Vamos concordar então que genética não é tudo na vida de uma pessoa, e perdoá-los por esse fato, já que ao menos eles fizeram o favor de me mandar com os olhos azuis que eu tanto amo. Encerramos o assunto da genética então, decidindo que os genes não são tudo. Sendo assim, porque os meus digníssimos pais não facilitaram a minha vida quando viram que eu era uma desritimada, tendo o insight de me obrigar a fazer ballet desde o útero? Não é possível que anos de ballet clássico não teriam me feito tomar jeito. Minha professora de expressão corporal no teatro, que agora ministra as tais aulas de jazz, me disse que meu andeor é maravilhoso, e que eu perdi anos importantes da minha vida sem estar numa aula de ballet. Eu fiquei assistindo a galera arrasando na aula enquanto eu apanhava pra acertar os passos básicos e lamentava a falta de atitude dos meus pais. Custava me matricular quando eu tinha 3 anos? Eu teria pagado menos mico na aula de hoje.

Afora o desespero na aula de jazz, vivo pensando que minha mãe com a minha idade devia muito bem saber cozinhar, e insiste em dizer que com menos tempo de vida do que eu tenho hoje,  ela fazia muito mais coisas de útil que eu. Pois sim, se ela tivesse me colocado aos 15 anos na frente do fogão e me obrigado a aprender a fazer arroz em troca de não passar fome, hoje eu poderia ser uma mestre cuca. Se eu morrer solteira só porque não sei fritar um mero ovo, a culpa certamente é dela. Além disso, minha alimentação não é digna de respeito. Adoro carboidratos e fujo do feijão sempre que posso. Brócolis? Viro a cara só de pensar num prato disso. Culpa de quem? Da minha mãe, que não conseguiu cumprir a tarefa de fazer a filha aprender a comer verduras. E essa falta de vergonha na cara de culpar os pais por tudo o que não faço de certo? Culpa dos próprios, é lógico, que não conseguiram nem me ensinar a assumir meus defeitos!

Do mesmo modo que é confortável culpar os pais pelas minhas incapacidades e péssimas escolhas, é extremamente fácil pensar que eu faria tudo diferente. Em questão de segundos olho pra galera que sabe dançar lindamente e penso que minha filha vai ser matriculada no ballet tão logo completar seu primeiro ano de idade. Pode não saber falar, mas vai saber dançar, ah se vai. Além disso, deixarei de castigo se roer as unhas. E vai aprender a amar brócolis nem que seja na marra. Nas horas vagas, vai jogar um vôlei, porque se eu não sou atleta olímpica hoje, a culpa, claro, também é dos meus pais. Meus filhos serão estrelas. Comerão de tudo. Cozinharão. Falarão 10 línguas. Conseguirão dançar todos os ritmos já inventados, e talvez recebam prêmios pela invenção de algum ritmo novo. Aliás, cada um de meus filhos receberá um prêmio Nobel de uma categoria diferente. Quero criar um time de crianças exímias em qualquer atividade. E aí, com certeza, eles culparão a mãe pela falta de liberdade na vida. E eu culparei a minha, novamente, por não ter conseguindo me ensinar a criar um filho direito. Errar é coisa de filho. E colocar a culpa nos pais é absolutamente conveniente.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Auniversário

Dez anos. Ao completar essa idade uma criança já está na quarta série, achando o máximo falar gírias e usar maquiagem. Quase beijando a adolescência, tem cada vez mais certeza de que é a dona de seu próprio nariz e de que sabe muito bem o que quer fazer de sua vida.

Nesse tempo que se leva para completar a idade das duas mãos completas, uma criança aprende a sentar, andar, falar, ler, escrever e a responder aos pais com o nariz mais empinado do que deveria. Aprende matemática, história, geografia, e decide, por exemplo, que detesta brócolis. Sobretudo, em dez anos uma criança aprende muita coisa. Muda bastante, e passa a não caber mais no seu colo. Ou pior: A não querer mais esse colo.

Kimmy nunca quis meu colo, na verdade. Ela só gosta da minha mãe. Mas acho incrível o fato dela ter continuado para sempre pequenina, porque isso faz com que eu possa agarrá-la o quanto eu quiser sem precisar me importar muito com sua opinião. Me conforta também pensar que ela não sabe responder, nem ficar horas sem olhar na minha cara porque eu fiz algo contra a sua vontade. Gosto de pensar que Kimmy, mesmo completando dez anos, continua parecendo um filhote peludo e manhoso, que chora quando quer um pedaço do meu pão de queijo.

Ela não aprendeu a falar, mas faz a gente entender exatamente o que ela quer. Não aprendeu matemática, mas fica bem mau-humorada se ganha um ossinho ao invés de dois. Nunca pediu pra usar maquiagem, mas se comporta feito uma lady quando minha mãe diz que vai pentear seu cabelo. Não pede pra comprar sapatos, mas já devorou algumas havaianas nossas.

Em dez anos ela me ensinou que não faço mais que minha obrigação em fazer carinho na sua barriga cor-de-rosa. Ensinou que é super legal escorregar no tapete. Ensinou que se eu deixar revistas em cima do sofá ela vai mastigá-las. Ensinou que ela é a dona do único facho de sol que bate nessa casa, e ensinou, acima de tudo, que a vida é muito melhor quando tem um bichinho pronto pra abanar o rabo no momento em que você entrar em casa.

Feliz aniversário, Kimmy!
Obrigada por esses dez anos não terem te feito mudar.