Eu comecei a fazer auto-escola em fevereiro do ano passado. Com isso eu quero dizer que foi nesse mês que eu fiz minha inscrição. Desde então, tudo correu rápido. As aulas teóricas, que não foram tão insuportáveis porque a turma era legal e porque a professora me deixava ler a biografia da Clarice ao invés de prestar atenção nas aulas de mecânica. Passei de primeira em todos os testes, incluindo o tal do psicotécnico, onde a maioria da turma reprovou. Eu ouvi um: “Sua memória é acima do normal”, enquanto sorria e pensava que já sabia disso. Eu sei até hoje os desenhos que estavam naquele quadrinho. Só, claro, preciso avisar que minha memória é realmente sensacional para coisas que não são importantes, tipo isso. Ok que na hora da prova era importante, mas hoje, 1 ano e pouco depois, é muito desnecessário lembrar da imagem. E eu já estou saindo do assunto.
As aulas teóricas passaram, a prova teórica passou, as aulas práticas começaram e começou o pesadelo. Porque eu comecei a ter pavor do meu instrutor. E ele brigava. E eu chorava. E olha que eu nunca fui barbeira. Meu problema era embreagem. Mas eu tinha tanto medo do cara que já saía de casa chorando em dia que tinha aula, respirava fundo e rezava uns 3 Pai Nossos. E eu tinha pânico de pensar no dia que eu fosse aprender a tal da baliza.
BALIZA. Todo mundo sabe o que é, e já tem medo desde antes de ter tentado. Porque todas as pessoas que já dirigem reclamam disso. Ou reclamam da prova, ou estacionam em outros lugares pra “fugir da baliza”. É claro que isso seria o pesadelo. E eu fui tentar fazer a minha. E acertei. E acertei. E acertei tantas vezes que meu instrutor, aquele, do qual eu tinha pânico, me perguntou: “O que aconteceu com você hoje que não errou nada ainda?”. Eu não sabia se era um elogio ou uma crítica, dei um sorriso enorme enquanto engolia o choro ao mesmo tempo. E foi assim. Eu fui treinando e errando pouquíssimas. Suei 2 horas embaixo de sol fazendo balizas, e não errava quase nenhuma. Nasci pra fazer baliza, pensei.
25 de setembro chegou e com ele a data da minha prova, e eu acordei tranquila. Minha mãe me desejou boa sorte e me deixou na porta da auto escola. Estava nublado e frio. Eu entrei no caso, fiz umas balizas, e fui dirigindo até o Detran. Dirigindo e tomando bronca. Meu instrutor deve ser formado em psicologia, só que não, e disse que eu não ia passar. Eu entrei na prova na certeza de que ia me ferrar no trânsito, só que da baliza, logicamente, eu passaria.
Entrei no carro e como Murphy me adora, meu avaliador estava sendo avaliado, e portanto, eu teria dois! Olha que delícia. Um fora do carro, um dentro, eu liguei o carro, andei pra frente, comecei a dar ré, o carro morreu, respirei fundo, entrei na baliza, respirei fundo de novo, puxei o freio de mão. O avaliador abriu a porta do carro e disse: “Belezinha, pode sair”. Você saiu da vaga? Não. Nem eu. Simplesmente não consegui mais sair do lugar porque o carro morreu 3 vezes seguidas, eu comecei a chorar e já levantei do banco.
Segundo round, 21 de janeiro, porque eu fugi 4 meses do assunto como o diabo fugia da cruz. Óbvio que a essa altura todas as pessoas do mundo que começaram auto escola junto comigo ou muito depois de mim já estão com carteira na mão, menos eu. E lá fui eu naquele 21 de janeiro ensolarado, fazer a prova de novo. Dessa vez com o dobro de pânico, porque, afinal, tudo bem reprovar na primeira vez, mas duas, não. O cara que me levou pra fazer a prova não era meu instrutor, porque o meu, olha que delícia (não é ironia) estava de férias! E eu fui dirigindo até o Detran, bem de boa, e o cara falou: “Eu te dava a carteira na mão, você tá dirigindo muito direitinho!” e lá fui eu fazer prova com o coração acalmadinho. Sentei no carro, fiquei vendo a galera errar a baliza e pensando em como aquela vaga era enorme, não dava pra errar. O meu avaliador chegou, entrei no carro, andei com ele pra frente, ele morreu, tentei dar ré, e ele morreu. 3 vezes. E fim.
Na minha primeira prova eu entrei na baliza e não consegui sair. Na segunda eu não consegui entrar e só de pensar nessa palavra eu começo a chorar. Quer me assustar? Diga BALIZA. Diga RÉ. Diga CARRO MORRENDO. DETRAN. AUTO ESCOLA. O qualquer coisa que o valha. Eu sempre fui Nerd. Dificilmente reprovei em alguma coisa que me prestei a fazer na vida. E essa porcaria virou meu pesadelo. Faltam exatamente 19 dias para a minha próxima prova. Eu vou passar nem que eu viva 19 dias em função de balizas e me entupa de floral. Porque senão, eu vou comprar uma bicicleta e utilizá-la pelo resto da vida. Esse atraso de vida não é de Deus e eu não aguento mais engolir seco toda hora que passo na frente de uma auto escola.

