A caçula da família nasceu na Ucrânia, mas se ressente comigo por eu afirmar isso em público. Diz que é brasileira, e não mais que isso. Se mudou pra cá perto dos 2 anos, mas jura que foi com 2 meses. Quanto menos tempo fora de seu país do coração, para ela, melhor.
Filha de Mania, que virou Marieta, e de Pinkhas, que virou Pedro. Irmã de Leah, que virou Elisa, e de Tania, que sempre foi Tania, pois o nome serviu para os dois países. Seu nome de ucraniana, Chaya. Chaya Lispector.
Desde que se lembra de ser chamada por alguém, já era Clarice, e sempre foi Clarice no Brasil. Clarice essa que certa vez, acordou desesperada de um pesadelo. Sonhou que escreviam várias coisas por aí e assinavam seu nome. “Meu nome é tudo que tenho, não podem fazer isso”. Demorou a se acalmar.
Acho que não vou conseguir explicar o aperto no peito que eu senti quando li esse parágrafo em sua biografia, Clarice, , escrita por Benjamin Moser. Sim. Meu coração se apertou. Clarice. Que um dia foi Chaya, que prefere não lembrar disso, e que sempre teve tanto, tanto apreço por seu nome, seu maior tesouro. Deve se revirar no túmulo ao tomar conhecimento de todas as baboseiras que são ditas por aí e assinadas em seu nome por tumblrs, blogs e twitters a fora.
Sim, porque Clarice e Caio são a moda do momento, e tudo nessa vida foi escrito pelos dois, ou, quando muito, por Tati Bernardi. Isso sem falar nas próprias críticas a isso, como o já conhecido: “O elefante caiu na lama. Clarice Lispector”, ou senão “Saia desse computador. Lispector, mãe”, e até eu mesma, ontem, ao ler minha amiga dizendo no face: “Cansaço é pouco, o que eu tenho ainda não tem nome” assinei embaixo: Lispector, Amanda.
Doeu na alma, gente, pensar que um medo tão grande da moça virou modinha por aí. O nome é realmente tudo o que temos de mais seguro nessa vida. Agora, se dói ter seu nome usado por aí ao léu, também é certo que dói se deparar com algo seu assinado por outra pessoa. Eu já vi isso acontecer com texto meu, e eu sou só eu. Uma aprendiz de blogueira que brinca de escrever. Fiquei foi contrariadíssima quando, procurando no google por um trecho de Pequena Abelha, de Chris Cleave, achei o parágrafo inteirinho em um tumblr. Sobre o Caio F. E, obviamente, assinado pelo Caio F.
Gente, querem criar tumblr para os ídolos? O mínimo que se pode fazer é tomar mais cuidado com o nome dele, e consequentemente, dos outros escritores que acabam envolvidos na bagunça, não?
Sobre a memória de Clarice, antes o meu amigo, que diz gostar da moça e assume não saber de nada, proclamando, somente, quando eu perguntei se ele sabia que ela tinha nascido na Ucrânia: “Sei não, Aninha. A única coisa que eu sei é que liberdade é pouco e que o que eu quero ainda não tem nome”. Gus, pode espalhar essa por aí. É mesmo de Clarice. De resto, pode continuar de biquinho calado!
Usando o nome dos outros por aí? Vocês estão fazendo isso errado!