Oi, meu nome é Ana Luísa e minha boca é grande. Desde pequena que minhas tias olhavam pra mim recitando a piada do pobre compadre jacaré, que não poderia ir à festa do céu porque tinha a boca grande demais. Eu vejo minhas fotos de neném e morro de rir: Certamente, a boca já era do tamanho atual. A criança cresceu em volta.
Então eu tenho a boca grande, é isso. Sendo assim, eu aprendi a vida toda que eu tinha que disfarçar a coitadinha. Festa de casamento, balada, baile de formatura? Maquiador, realça os olhos e dá um jeito de sumir com essa boca! E lá ia eu, saltitante, com delineador, sombra, 2 quilos de rímel, e um batonzinho bem do básico. Os olhos aumentavam, a boca ficava menorzinha, e eu ficava contente.
Mas a gente sempre guarda umas vontades da infância dentro da gente. E quando eu era mais novinha e não entendia nada sobre tamanhos de boca, meu sonho era passar batom vermelho. É óbvio que minha mãe não deixava. E quando eu cheguei na idade onde eu poderia decidir sozinha a cor do meu batom, eu já tinha encafifado que a pobre da minha boca grande jamais poderia ser pintada de vermelho, e assim era a vida.
Até que uma vez eu brinquei de Marilyn Monroe na aula de maquiagem e o professor tacou um vermelhão naquela boca. Meu racional ficava gritando: Tire isso daí que está ridículo! Mas no fundo eu tinha gostado de olhar no espelho. Uma outra vez, para se vestir de rockeira em um LipDub, minhas amigas tacaram um vermelho na minha boca e eu fiquei com a mesma sensação: “Preciso tirar essa coisa logo mas até que está bonitinho”. Em uma outra tarde comum, minhas amigas de teatro decidiram fazer um motim do batom vermelho. Eu fingi que passei. Enquanto elas abusaram do vermelhão eu passei de leve, e deixei só vermelhinho. Mas a pulguinha da vontade já estava enorme atrás da orelha.
Aí, numa inocente quarta-feira, uma colega que vende AVON veio empurrar a revistinha pra cima de mim, e eu comecei a folhear com a maior falta de espírito do mundo. Até que achei. Um batom vermelho chamado maçã-do-amor. E custando 6 reais. Sim, porque gente. Eu não ia me arriscar de cara num Make B. da Boticário e gastar meu rico dinheirinho num batom vermelho pra deixar encostado no armário. Comprei o batom.
Na sexta-feira, dia de balada marcada para comemorar o aniversário da amiga, peguei o batom. Abri, olhei a cor, e ri na minha própria cara: “Ana Luísa, você é uma fraude! Comprou esse batom só pra fazer graça. Nunca vai ter coragem de usar”.
E eu vim pra casa com 3 amigas e o batom na mão. É claro que a primeira parte das festas sempre começa aqui no meu quarto, onde todas nós nos arrumamos juntas, jogando 1928193 roupas no chão, testando 102813 pares de sapato, trocando perfumes, decidindo brincos e ouvindo música na maior altura mesmo depois das 22h. E então, já vestida, pronta pra cair no sertanejo, com vestido de renda, bota, unhas douradas e rímel, segurei na mão o meu rosinha brilhante de sempre e o tal do batom vermelho. Já estava prestes a amarelar, mas a Letícia falou logo: “Então me empresta isso aí que se você não tem coragem uso eu”. Ah, agora tinha virado questão de honra. Eu comprei o batom vermelho e eu ia usar. Passei. Bem de leve. Ficou um vermelho escondido, eu achei bonitinho, e passei o batom pra Letícia. Que passou bem forte. E pra Rafaela, que fez a mesma coisa. E então eu olhei pra cara das duas, mais novas que eu, e decidi que se elas podiam eu também podia e não ia ser uma boca grande que ia me impedir. Passei a mão no tal do maçã-do-amor e tasquei na minha boca. Não olhei muito no espelho pra não me arrepender. Já no carro, peguei o celular na mão e resolvi tirar uma foto inocente, usando o retrovisor do carro pra guiar a câmera. Afinal de contas, eu ainda não passei dos 15 e desde que escutei “Velha e Louca” da Mallu Magalhães que estou morrendo de vontade de postar uma foto com a legenda: “Que hoje eu passei batom vermelho”. E assim eu fiz. Tirei a foto, postei, e caí no sertanejo.
Quando voltei pra casa, às quase 6h da manhã, depois de ter dançando horrores e voltado pra casa sem batom nenhum porque eu também sou filha de Deus, passei o removedor nos olhos, escovei os dentes, me atirei na cama e fui dar aquela facebookeada básica antes de apagar os olhos. 34 pessoas tinham curtido a tal da foto. Tive que me render. Acho que o tal do batom vermelho, no fim das contas, funciona. Até na minha boca grande.
Se a Angelina pode, eu também posso.