Acordei às 8h da manhã, o que é bem inusitado e raro. Porque em dias de aula, eu acordo sempre às 6h30. E em dias de não-aula, eu nunca vou levantar antes das 11h. A menos que haja uma razão incrível para isso, como por exemplo a casa da vovó lotada de família. Mas mesmo assim, será depois das 9h. Mas hoje, hoje eu acordei as 8h. Acordei às 8h porque eu só tinha a segunda aula. Acordar às 8h tem um astral interessante! É uma manhã, que mesmo começando, já tem consistência. Não é aquela morrinha de acordar às 6h da manhã, com dia querendo amanhecer e você querendo vender o fígado pra poder dormir mais 5 minutos. Não que eu estivesse saltitante às 8h, porque eu não sou uma pessoa que funciona de manhã, anyway. Mas acordei com um astral diferente. Porque eu acordei às 8h da manhã.
Depois do almoço eu fui pra quinta aula prática da auto-escola. Estava chuviscando, mas ainda não foi dessa vez que eu precisei ligar o para-brisa. Andei bem! Deixei o carro morrer uma vez, mas de resto, foi tranquilo. Acho que cheguei aos 40km por hora, mas ainda não passei a terceira marcha. Mas eu estacionei macio! Consegui parar o carro sem dar tranco. Não, ainda não sei o que exatamente foi que eu fiz de certo pra isso acontecer. Ainda não consegui decorar se eu tenho que apertar primeiro a embreagem e depois o freio, ou se devem ser os dois ao mesmo tempo, ou o que que eu devo soltar antes. Mas saí feliz de lá. Porque eu estacionei macio.
Passei raiva de tarde, porque andei um montão à toa. Achava que tinha um compromisso, e andei, andei e andei até ele, só para descobrir que ele na verdade era no dia seguinte. Então eu andei, andei e andei de volta pra casa, na chuva, com as roupas me apertando, o cabelo na cara me irritando, e os pedreiros chatos espiando. Cheguei em casa relinchando, arranquei todas aquelas roupas e me dei ao luxo de tomar um banho de meia hora, com direito a muito creme hidratante no final. Continuava chovendo, e eu jajá teria que sair de novo. Mas estava calma. Porque eu tomei um banho quente de meia hora com direito a creme hidratante no final.
Comi um iogurte de morango cheio de Neston em cima, me estiquei na minha cama, e depois abri guarda-chuva e fui fazer unha. Bati os altos papos de sempre com a manicure ciumenta e todos os outros integrantes do cenário, como o cabelereiro lindo que faz dança com a minha professora de expressão corporal. Minha manicure manda em mim, então é ela quem escolhe o meu esmalte. Hoje ela me tacou um azul metálico. O cabelereiro, que já tinha me cobrado de marcar minha hidratação, aproveitou para zoar com a minha cara e dizer que na semana passada eu tinha dito que passaria qualquer coisa na minha unha, menos azul. Minha manicure vive fazendo com que tudo o que eu cuspa para cima caia direto no meio da minha testa. Depois do papo delicioso, da hidratação marcada, e do rímel super shock max comprado, só me restava sair na chuva de novo e caçar o rumo do ponto de ônibus pra ir ensaiar. Mas tudo bem. Eu saí dali me sentindo inovadora. Porque eu tinha acabado de passar esmalte azul metálico.
Um ônibus passou à toda bem do lado do ponto de ônibus e me molhou. Chegou um cara do além, BEM louco, com um cigarro na mão, e todo molhado. Ele vinha pela calçada, e como tudo nessa vida sobra pra mim, tinha mais umas 10 pessoas entupidas no ponto de ônibus, quando o cara de repente fala: “aquela loira ali”, e enquanto todo mundo no ponto de ônibus olha meio assustado, as mulheres se encolhem e os caras meio que fazem uma posição de: “se ele tocar nela a gente vai ter que dar um jeito”, o moço abaixou o cigarro, tirou o capuz, revelou um par de olhos azuis lindíssimos, abriu um sorriso, e me deu um beijo na bochecha enquanto eu andava pra trás tentando fugir. Aí ele olhou de volta e disse: “Prazer, Rafael”, e sumiu. Eu fiquei sem ação, enquanto todo o ponto de ônibus me encarava, provavelmente pensando o que eu tinha achado daquilo, enquanto eu pensava sobre o que todos eles tinham pensado sobre o assunto. O ônibus chegou e eu subi nele completamente inerte. Porque eu estava encharcada e tinha acabado de ganhar um beijo de um desconhecido maluco e lindo, chamado Rafael, que vinha pela calçada todo molhado e com um cigarro na mão.
Já no ensaio a gente anotou alterações de texto, aqueceu voz, cantou, e a diretora disse que a música está mais bonitinha! Depois teve exercícios de corpo, rolamos muito pelo chão, corremos, sentamos e levantamos, torcemos os músculos do abdome, fortalecemos as coxas e eu tenho certeza que tudo isso vai estar doendo amanhã, porque eu sou sedentária. Mas eu estou feliz, porque consegui fazer quase tudo bem direitinho.
Além disso, a gente fez exercícios de concentração e sintonia de grupo, com luz apagada e cada um em um canto. Eu me envolvi com o exercício, até esqueci que tinha um mundo lá fora. Chegou a hora de ir embora e a chuva continuava, e eu me molhei correndo do carro pra entrada do prédio. Cheguei ranhetando, tirando roupa molhada, bolsa molhada, limpando os pingos de água que caíram na Elizabeth, amaldiçoando essa chuva ininterrupta e coisa e tal, mas já estou no meio das almofadas bem tranquila. Porque eu, a dona da mente que não para, consegui me desligar do mundo na hora do exercício de sintonia.
E depois de tudo isso eu vou tratar de me esticar mais na cama, ler, pensar na vida, e dormir bem de boa. Porque amanhã não tem aula. E porque eu reparei que um dia tão comum quanto um simples 24 de maio pode ter uma porção de porquês que fazem as coisas saírem do comum.