Livremente inspirado nesse blog genial aqui
“Se eu fosse contar a história da minha vida, seria através dos amores
que eu tive”. Quem disse isso foi Mônica Martelli, em “Os Homens são de
Marte e é pra lá que eu vou. Como não tive todos esses amores, vou me permitir
parafrasear esse trecho, que tanto amo: Se
eu fosse contar a história da minha vida, seria através dos professores que eu
tive.
Quando eu era criança eu achava
que era muito tranquilo fazer amizade com qualquer tipo de pessoa. Foi assim
que eu cresci achando totalmente natural gostar de bater-papo com meus
professores, o que sempre foi facilitado já que passei 80% da minha vida de
estudante sendo nerd e sentando na carteira que ficava colada na mesa do
professor. Acho que professor, aquele que realmente nasce pra isso, é um ser fascinante. Aí eu me lembrei dele.
Eu acho que fui ginasta em outra
vida. Só isso deve explicar uma criança de 4 anos que sonhava em fazer
ginástica olímpica. Acho que se eu perguntar pra minha prima de 5 o que é
ginástica olímpica ela não vai saber. Mas eu sabia muito bem, e queria ser uma
delas. Minha primeira experiência, em Vitória, foi traumática. A mulher, que me
recuso a chamar de professora, sentou nas minhas costas na primeira semana de
aula para forçar uma abertura de espacato. Não, né, gente?
Aí me mudei pra São Paulo e logo
no início das aulas passaram uma folhinha enumerando todos os curso
extra-curriculares que a escola oferecia. Ginástica Olímpica estava lá e
brilhou em neon bem no meio da minha cara. Acho que fui a primeira a me matricular,
e talvez a primeira da história da escola.
Quando chegamos na quadra para o
primeiro dia, devíamos ser um grupo de 6 ou 7, sentamos no chão, na frente de
um colchonete muito do esquisito, e ouvimos o professor falar que era a
primeira vez que tinha ginástica olímpica na escola. Que ele iria tentar
emplacar.
Olhando de fora, pode parecer piada.
Um professor, uns colchonetes e um grupo de meninas do ensino fundamental
querendo emplacar alguma coisa. Não sei direito o que aconteceu no meio desse
caminho, só sei que aconteceu, porque 4 anos depois, quando fui obrigada pelo
meu médico a sair, já éramos muitos e tínhamos muitos, muitos colchões
apropriados e cama elástica.
Mas isso não é sobre a ginástica olímpica. É sobre o Carlos. O cara
que conseguiu tudo isso. O cara que ensinou a gente que “cambalhota” na verdade
se chamava “rolamento frontal”, e que um dia a gente poderia fazer aquilo no ar, se quisesse.
Ele era muito rígido. Leia-se no
popular infantil: bravo. Muito bravo. “Professor, tô com dor na perna” alguém
dizia. E logo vinha a resposta: “Sinal de que você tem perna, continue”. Pode
parecer o mesmo abuso que a mulher de Vitória fazia, mas eu juro que não.
Porque o Carlos tinha o dom. E o dom é toda a diferença. Ele sempre sabia de tudo. Ele sabia quando doía de
verdade. Sabia quando a gente precisava parar. Sabia quando a gente estava de
corpo mole ou quando realmente não conseguia fazer. Ele não respeitava
preguiça, mas respeitava medo: ficou quase 1 ano segurando as minhas costas
para eu fazer reversão para trás. Ele sabia que eu sabia, mas entendia
totalmente o meu medo de errar e cair de cabeça no chão. Aprendi a fazer
reversão para trás com o Carlos como quem aprende com o pai a andar de bicicleta: achei que
ele estava com a mão ali, e quando terminei, vi que ele estava sorrindo, com as
mãos para o alto. “Eu fiz sozinha, professor? Sem cair?” “Você já sabe fazer
tem tempo, Aninha, tem tempo!”.
O malvado favorito da minha história dava muita, mas muita
bronca na gente. Brincava dizendo que queria que fôssemos perfeitas, mas o que
ele queria mesmo dizer era que devíamos dar tudo de nós. Foi assim que ele conseguiu
emplacar a ginástica olímpica na escola; conseguiu que fôssemos levadas a
sério.
Esse professor, tão ogro que era, sentava no fim da aula
para nos propor desenhos de collaints para nossas apresentações. Dizia para a
direção da escola que merecíamos uma cama elástica nova. Nos ensinou o que era democracia
e justiça quando sentou para conversar conosco e avisou que éramos em 22 e só
20 poderiam ir ao festival de ginástica da outra escola: “Todas vocês vão
ensaiar uma série de movimentos. Daqui a duas aulas todas apresentarão essa
mesma série e em seguida, vocês darão notas umas para as outras. As duas que
tiverem as menores notas finais não poderão ir”. Pode parecer até piada, mas
nunca antes na história da minha existência eu tinha me preocupado tanto em não
dar notas baseadas em amizade, e todas pensaram da mesma forma. O professor
tinha nos dado esse poder porque confiava na gente e grandes poderes exigem
grandes responsabilidades. Estava nas nossas mãos, e teríamos que ser realmente
justas. Reafirmo essa lembrança quando me recordo que a Bruna não foi para o
festival – e ela era cheia de amigas.
O Carlos estava ali para nos
ensinar ginástica olímpica, mas ensinou muito mais que isso. Ensinou que determinação,
dedicação, ética e responsabilidade fazem de qualquer pessoa um grande ser
humano e às vezes, quem sabe, um grande ginasta também. Não o vejo há 11 anos. Fico pensando no tanto de pessoas que ele já construiu desde então. Construir pessoas. Muito mais que apenas instruir. Construir pessoas é o tipo de coisa que só um professor de verdade é capaz de fazer.