Parte 1: long story short do que veio antes
Uma coisa importante que vocês já devem saber sobre mim é que eu passei a infância inteira assistindo filmes da Disney - e uma boa parte da adolescência dividida entre as comédias românticas e livros que descreviam belíssimas histórias de amor. Não sei o que essa avalanche de utopia faz com a cabeça das pessoas normais, mas acho que sei bem o que fez com a minha.
Foram infinitas noites em claro, das sonhadoras às desesperadas: tinha hora que eu imaginava o cenário perfeito do primeiro encontro e hora que eu tinha certeza que nada nunca aconteceria comigo e eu ia acabar morrendo seca. É, acho que também assisti novelas de época demais durante a trajetória.
Outra curiosidade aleatória é que, quando eu era pequena, tinha em mente que os 16 anos seriam um marco. Sempre que eu me imaginava no auge da minha adolescência, tendo longos cabelos lisos, unhas compridas e um namorado bonitão, isso acontecia aos 16. Pois bem, os 16 vieram, passaram, me deixaram comendo fumaça e nada de história de amor.
Ainda outra coisa que vocês podem aprender sobre mim é que eu levo tudo a sério demais. Eu não sei "ter um casinho". Se eu conhecia alguém que eu achava interessante, antes mesmo do ser humano perceber a minha presença eu já estava testando se nossos sobrenomes combinavam com os nomes que eu sempre planejei para os meus filhos. Nunca consegui experienciar isso que as pessoas chamam de se divertir com os errados. Eu ficava com alguém. Ficava uma. Ficava duas. Ficava três vezes no máximo e já estava querendo escalar o Everest só para fugir da enrascada que era insistir em ficar com um garoto que não estava fazendo a minha vida virar de ponta cabeça ou o meu coração querer sair pela boca. Eu sou assim. E passei anos achando que tinha vindo com defeito de fabricação.
Fui achando algumas amigas no meio dessa caminhada que entendiam exatamente o que eu sentia porque, pasmem, sentiam a mesma coisa. Então pelo menos eu não era a única - não que fosse legal pensar nas amigas sentindo os mesmos desesperos e a mesma vontade de fugir para as colinas. No início de 2015 acabou caindo nas minhas mãos o livro Never Have I Ever, a autobiografia de uma moça de 25 anos que nunca tinha tido um namorado, ou melhor, nunca tinha conseguido passar nem do segundo encontro. Eu ria e chorava ao mesmo tempo enquanto lia: gente, pessoas assim, elas existem.
Me conformei abraçada com Katie, a autora, logo no prólogo: tem pessoas que são farol, tem outras que são triângulos das bermudas. Na concepção dela, os faróis são aqueles seres humanos que são sempre vistos, sempre cortejados, sabem flertar e estão, curiosamente, SEMPRE namorando. Na minha cabeça essas pessoas sempre foram um mito a ser desvendado. Eu olhava para uma prima minha ou para uma das minhas amigas que sempre emendava um namoro no outro e ficava pensando: MAS COMO. Assim, se eu, em todos esses anos, estava achando tarefa impossível achar UMA pessoa, como é que elas conseguiam tantas? Fica o mistério no ar.
Pois bem, voltando à definição dela, à parte dos faróis está a categoria na qual eu me encaixo: os não tão famigerados Triângulos das Bermudas. Segundo Katie os triângulos das bermudas são os locais aos quais nenhum navegador consegue/quer chegar. Com isso, acaba que quando algum desavisado chega ali por acidente o triângulo não faz a menor ideia do que fazer com a visita inesperada, reagindo de forma inapropriada e estragando tudo. Sempre. No fim das contas ela deixa no ar uma mensagem de esperança, para ela mesma e seus possíveis leitores triangulares: um dia vai, né? Tem que ir. Tem horas que é fácil acreditar nela. Tem horas que é difícil. Até que de repente, de fato, vai, e você, quase sem fôlego, nem consegue explicar direito como as coisas aconteceram. Mas vou tentar.





