Eu comecei esse blog aqui quando eu tinha 16 anos nas costas. Antes disso, passei divertidos 4 anos no anonimato, onde eu apenas lia blogs dos outros. Era uma tarefa diária, sabe. Eu tinha uma lista de mais de 100 no meu bloco de notas e todo santo dia fazia a ronda em todos eles. Entrava em parafuso quando os meus favoritos começavam a ficar tempo demais sem postar. Blogueiro legal devia ser obrigado a postar todo dia, eu pensava.
Aí eu inventei de criar o meu blog e o cuspe, ele segue insistindo em cair na testa porque, vejam só, 9 longos dias se passaram sem que eu desse as caras por aqui. Não sei se alguém sente falta, se algum fã anônimo torce para que eu poste todo dia e fica frustradíssimo do outro lado da tela querendo me demitir por abandono de cargo, não sei. Só sei que ninguém, jamais, se sentirá tão irritado quanto eu mesma se meu blog estiver entregue às traças. Cada dia sem post se transforma em uma noite onde eu deito para dormir com peso na consciência e aquela pergunta que não se cala "será que eu não consigo mais escrever, meu Deus? Será que não vou conseguir atualizar o blog nunca mais?" e a vida segue assim há quase 7 anos.
E toda essa introdução aleatória foi só mais uma daquelas que não tem nada a ver com o post, só para distrair todo mundo do assunto verdadeiro. Então, na verdade eu estava cá incomodadíssima das ideias com a falta de ideias quando resolvi parar de enrolar e fazer, quem sabe, uma resenha sobre o último livro que li. Pensei nas batalhas que travei com ele. Pensei que de vez em quando é interessante abrir uma página em branco para descer lenha em alguma coisa, por mais que eu prefira escrever sobre o que amo. Pensei, pensei, pensei, e acabei aqui, onde continuo pensando.
Deixa eu contextualizar para vocês: eu tava afiadinha na literatura esse ano, sabem? Beirando os 20 lidos faltando 1 mês e meio para a chegada do segundo semestre, tava tudo indo muito bem obrigada. Acontece que geralmente aparece um MAS no meio das histórias de amor (?) e o MAS da minha plena relação literária em 2015 veio no meio de maio e se chama "Na Praia", de Ian McGregor McEwan.
Vejam bem, eu fiquei uns 4 anos prometendo para mim mesma que esse ano eu leio Reparação. E era sempre a mesma coisa. O ano virava e o livro continuava lá na parte das metas do Skoob. Eu olhava para ele e chegava a me dar comichão, sabe assim? Aí ao invés de resolver a pendência eu fingia que nem era comigo e comprava outra coisa. Assim foi até o momento em que dei de cara com ele em promoção na internet e pensei É AGORA OU VAI OU RACHA VEM NI MIM MCGREGOR MCEWAN e pronto, malfeito feito. Li o livro. Amei o livro. Gritei pro mundo. Mandei todo mundo ler. Essas coisas.
Fiquei com tanta vergonha de ter procrastinado tanto essa leitura que resolvi que o migo Ian merecia mais da minha parte, e foi assim que acho que fui com sede demais ao pote de um de seus outros livros e, com o perdão do trocadilho infame que estou prestes a fazer, morri "Na Praia" (badunts).
Olha, se alguém aqui me segue no snapchat (#jabá: analubussular) percebeu que a guerra foi feia. Eu fiquei praticamente 1 mês brigando com esse livrinho de CENTO E VINTE E OITO míseras (e enfadonhas) páginas. A sensação que eu tinha é de que eu lia. Lia. Lia. E o livro não acabava. Mas a sensação estava errada, porque na verdade eu não lia mesmo. Eu pegava o coitado, passava o olho em duas páginas, concluía que preferia estar morta e desistia da brincadeira mais uma vez. Foi dessa forma que passei a segunda metade de maio e a primeira de junho encalhada nas areias da literatura: por culpa de uma praia entendiante que peguei. Enquanto isso, óbvio, na vida real estava rolando uma das melhores praias da minha vida (gente, Fortaleza, anotem, comprem passagem, se mudem pra lá agora), mas isso não vem ao caso.
Então. Depois de tanto brigar com o tal do livro eu resolvi que seria justo fazer uma resenha daquelas irritadas, falando com bastante coerência e maturidade sobre tudo o que me incomodou. Sobre as idas e vindas, sobre a narrativa lenta, sobre a falta de clímax, sobre a resolução mal feita, enfim. No meio disso tudo, eu ainda pretendia dizer que Ian tinha quebrado de forma totalmente deselegante aquela promessa inviolável que um autor cria conosco quando temos vontade de casar em Vegas com a primeira obra que conhecemos do mesmo. Ian, por que?
Só que aí eu lembrei que adoro dramatizar as situações quando consigo, e antes mesmo de começar o texto fui matutar sobre um título que falasse sobre essa quebra de promessas. Concluí que talvez pudesse ser considerado até uma traição, sabe? Como assim você me dá um beijo daqueles, Ian, e em nosso segundo encontro vem com tapinha nas costas? Me senti iludida e traída, esse talvez fosse um bom ponto de partida para a resenha. Até que lembrei também que, como já disse Renato Russo, às vezes o que foi prometido ninguém prometeu, sabe? E que não era porque eu tinha amado tanto um livro do Ian que ele tinha obrigação de que todos os outros fossem à (minha) altura.
Sabe aquela frase que o mundo vive querendo fazer a gente lembrar, aquela que diz que a expectativa é a mãe da merda? Então. É aquele pensamento martelante de que as expectativas que a gente põe sobre as coisas ou pessoas dizem muito mais sobre nós mesmos do que sobre elas de fato, né? Então. Foi por isso que antes mesmo de postar eu fui obrigada a concluir o óbvio e mudar totalmente o rumo desse texto. Achei o livro ruim e chato e isso é única e exclusivamente um problema meu. Ian não me prometeu nada com aquele primeiro beijo - a culpa foi toda minha que comecei a testar nossos sobrenomes e me imaginar vestida de noiva. Resumo da ópera (ou da pior resenha que essa internet já viu): fui de Nelson Rodrigues no título mesmo porque acho esse título foda achei que Ian merecia ouvir meu pedido de desculpas. Fiz um escarcéu mental e tanto, expus o coitado em praça pública, reclamei de uma grande traição e... foi tudo culpa minha. Fui que me iludi; eu que provoquei a suposta traição. Às vezes, um beijo é só um beijo mesmo.
Gabriel García Marquez disse uma vez por aí que se recusava a admitir que a vida por vezes parecesse tanto a má literatura. Às vezes sou eu que custo a aceitar que as as desventuras de uma rotina literária acabam por se parecer tanto ao desenho da vida real. Se a gente para demais para pensar, tudo nesse mundo pode ser considerado metáfora, no fim das contas.