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domingo, 13 de março de 2016

Desculpa (por existir e por me desculpar tanto)

Eu não sou uma pessoa rancorosa. Eu carrego esse anti-rótulo (?) comigo mesma há muito tempo, acho que desde um dia, lá na época do colégio ainda, quando eu aprendi que eu nunca queria ficar brigada com as pessoas e que não tinha problema nenhum em pedir desculpas - mesmo que a culpa não fosse minha - só para acabar com a briga de uma vez. Sempre tive pra mim que isso era muito nobre, inclusive, pedir logo desculpas, independente do que estivesse acontecendo, para cessar a briga de uma vez e aproveitar a vida, "que é muito curta para ficar brigada com alguém", outra dessas verdades de botequim que eu sempre entoei na minha cabeça e na dos outros.

Estava pensando nisso tudo esses dias, mais uma vez, após conversar com a minha amiga e conseguir elencar para ela tudo aquilo que eu devia conseguir elencar sozinha: às vezes, também, é muito importante ter pra gente mesmo que NÃO, nem tudo é nossa culpa e que NÃO, às vezes não é legal assumir qualquer frustração do outro e/ou desentendimento superficial ou sério somente para que tudo pareça mais tranquilo, a conversa se resolva logo e a gente ainda saia feliz por ter sido o "maduro" da situação - ou chateado por acreditar piamente que a culpa é toda sua.

Refletindo sobre esse ato, o de se desculpar, lembrei de algumas passagens:
  • De uma vez que fiquei muito brava quando um amigo meu me disse, depois de anos de amizade, que 90% das vezes que brigamos foi claramente culpa dele e eu sempre tinha sido a pessoa a pedir desculpas. Quando ele disse isso, rindo, eu me senti tão ridícula que não tive resposta para dar. 
  • De uma vez que um outro amigo ficou brigado comigo por meses a fio, sem sequer me dizer o motivo, enquanto eu, insistentemente, pedia desculpas TODOS OS DIAS sem nem saber o que eu tinha feito. Até hoje ele nunca me contou o que aconteceu, mas um dia, do nada, voltou a falar comigo, disse que a raiva tinha passado e, de quebra, me contou que o fato de eu ter ficado todos os dias pedindo desculpas sem nem saber porquê conseguiu irritá-lo mais do que o tal do motivo da briga: "Se você me pedia desculpas tão tranquilamente sem nem saber se realmente se sentia culpada pelo acontecimento, quer dizer que não se importa tanto, que pedir desculpas para você é banal". Mais uma vez fiquei sem palavras.
  • De um texto que eu li sobre como é errada essa mania de impor às crianças, feito robôs, que elas devem olhar para o amiguinho e pedir desculpas imediatamente após tê-lo machucado. A situação deve ser conduzida de outra forma, e não de uma forma que induza uma criança a pedir desculpas sem que ela esteja se sentindo culpada, porque assim parece que um pedido de desculpas, ainda que fajuto, será sempre capaz de resolver tudo - ou, ao menos, de botar panos quentes.
Isso tudo me faz pensar que tem palavras que a gente diz demais e que acabam perdendo o sentido no meio do caminho. Me faz pensar que a gente, talvez, não tenha que pedir desculpas quando não se sente culpado só para dar um jeito nas coisas: por mais que a intenção seja, a princípio, nobre, não é bacana (principalmente) consigo mesmo aceitar estar numa relação onde você tem sempre que se assumir culpado para ficar tudo bem. Uma hora a bomba acaba estourando, de um jeito ou de outro, e você ainda pode ser obrigado a ouvir, de alguém dando gargalhadas, que você pedia desculpa até quando a culpa não era sua. Me faz pensar no quão errado é tornar automático o pedido de desculpas quando você simplesmente não se sente culpado ou nem sequer sabe o que fez. E last but not least, me faz pensar no quão perigoso e pouco saudável é a ideia de se culpar o tempo todo.


São dois caminhos porque, no meio dessa análise toda, consegui compreender dois lados distintos da questão: o de pedir desculpas toda hora sem se sentir culpado e o de pedir desculpas toda hora por se sentir culpado sempre. Tem algum pedidor de desculpas lendo esse texto maluco? Então vamos frisar junto/as: nem sempre somos culpados. Na grande maioria das vezes nem existe um culpado em uma situação ou discussão. É só a vida e as frustrações que ela inevitavelmente gera, e se a gente se culpa o tempo todo pelas frustrações do outro isso não vai levar ninguém a lugar nenhum: nem o outro e nem a gente.

Se culpando toda hora a gente tira do outro a carga que ele tem que aprender a carregar quando é a vez dele - e coloca nos nossos próprios ombros. E como é fácil colocar nos nossos próprios ombros, não é não? Às vezes também, como eu disse ali em cima, nem é culpa do outro. Não precisa ser culpa de ninguém. Coisas acontecem (e não acontecem), a vida acontece (e não acontece também). Neil Gaiman disse uma vez que um dos grandes problemas das pessoas é que a gente vira e mexe se esforça para ser gentil com os outros e esquece de ser gentil com a gente mesmo. Preciso começar urgentemente a aplicar esse exercício: antes de me sentir a pior das criaturas por algo que não é my shit, melhor relembrar que também tenho ser gentil comigo para poder ser melhor com os outros.

Agora se o âmbito for o outro caminho, o de pedir desculpas sem estar culpado, acho que o exercício é diferente. Elaborando mentalmente o que o amigo do segundo tópico disse, percebi que é realmente mais fácil pedir desculpas quando a gente não se sente culpado at all. Era muito fácil pedir desculpas para a minha amiga quando ela se estressava atoa, ficava de joelhos na carteira da escola e começava a gritar comigo - se eu pedisse desculpas logo ela ficaria sem graça, eu ficaria de boas, a gente ia voltar a conversar normalmente e tudo acabaria bem, era só isso, eu não tinha culpa. 


O buraco é mais embaixo quando a gente tem (ou não tem, mas sente) culpa de verdade: o dia que eu gritei com a minha tia e pensei que precisava pedir desculpas fiquei mais ou menos 1h inteira batendo os talheres no almoço pensando na treta que era levantar a cabeça e pedir desculpas de uma vez. Posso estar errada,  mas acho que na maioria das vezes esse é um bom parâmetro: se pedir desculpas não é nem um pouquinho incômodo é porque, nem que seja lá no fundo, a gente não está sentido a culpa (ou a vergonha, que seja) pelo que fez.

Se dá para piorar a situação e os questionamentos, ainda consigo pensar rapidamente se o ato de pedir desculpas de uma vez não acaba tornando tudo muito confortável:::: a gente se acostuma tanto a pedir desculpas mesmo sem estar culpado que, de repente, para se autoavaliar e acredita que está pedindo desculpas sem estar culpado ATÉ quando está culpado - e quando a gente é culpado de verdade é importante sim aceitar as cargas da culpa, PELO MENOS com o intuito educativo, afinal de contas tem coisas que a gente precisa errar e internalizar para aprender com propriedade. ENFIM, muita água e muita margem para apenas um cérebro problematizador, alguém tá afim de debater?

Esse texto não tem conclusão. Vocês sabem que minhas filosofias de botequim (ou seriam sociologias de pia de cheia de louça?) nunca terminam concluídas porque não passam de uma agitadíssima auto-reflexão que eu prefiro, ao menos, deixar registrada antes de simplesmente deixar passar. Parafraseando Caio F., escrevendo eu me escuto pra caralho - e vai que, de quebra, ainda não acaba servindo para alguém? 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Todo mundo adora uma história de amor (5 e além)

Parte 5: O mundo desfocou e só se via a gente

Bem, depois que eu decidi que "ficar num bar no Rio de Janeiro com um desconhecido" era uma ideia muito mais razoável do que eu tinha acreditado a vida toda que seria, a vida ficou bem mais fácil. Paloma foi embora, eu disse pro mocinho que tinha que voltar pra casa às 23h30 mas de repente era 1h da manhã e a gente não tinha visto passar.

Assim como tínhamos feito no whatsapp, conversamos por horas sobre o tudo e sobre o nada, dessa vez com muitos sorrisos, abraços e beijos no meio. Lá pelas tantas um bêbado parou na cerca do bar, bem do lado na nossa mesa, e desejou uma boa noite "para o senhor e a sua esposa". Mocinho olhou pra mim e disse que o bêbado era muito audaz porque tinha acabado de prever o futuro. Rimos. Nos beijamos de novo.

Fomos à pé para a casa de Paloma, onde ele me deixou, e logo começamos a conversar de novo no whatsapp. Ele que começou, 2 minutos depois de me deixar na portaria, dizendo "Foi incrível". E realmente tinha sido. No dia seguinte eu era uma pessoa de ponta cabeça na cama, rolando de um lado para o outro, enquanto falava no telefone com a melhor amiga que tinha conhecido o amor da minha vida, que era incrível, e que eu estava totalmente enchanted to meet him - e que tinha dito isso para ele.
  
O vídeo é ridículo e não oficial mas a música que conta

Saímos de novo dois dias depois - e de novo, dois dias depois. Cada intervalo de dois dias desses parecia um inverno inteiro. Eu virei o tipo de pessoa que queria levar o celular para debaixo do chuveiro; que ficava o tempo todo esperando a tela acender. Para a minha sorte ela nunca deixou de acender até hoje.

Depois desses três encontros chegou a hora de eu voltar para Curitiba e tudo o que eu sabia até então é que eu tinha deixado um livro emprestado com ele e que a gente ia se ver de novo. Além disso, tudo era um grande ponto de interrogação. Cheguei em casa numa segunda e continuamos nos falando sem parar, até que no início da madrugada de sexta para sábado, de 2 para 3 de outubro, ele me disse, sem preparação nenhuma e no meio de um assunto qualquer que ele estava completamente apaixonado. Eu disse que também estava. Foi ali que decidimos (ou entendemos) que estávamos, sim, falando de amor.

Eternos 26 dias depois ele chegou no aeroporto de Curitiba, por volta das 17h, enquanto eu paria (junto com ela) alces, dromedários, ovinos e eventuais galináceos de tanta ansiedade. Afora todos os dias de conversas ininterruptas no whatsapp, algumas madrugadas viradas e uns 3 skypes, não tínhamos olhado de fato na cara um do outro depois do grande momento. Mas foi tudo como se sempre tivesse sido. Ele foi lá pra casa e em 10 minutos a minha mãe também estava apaixonada.

Entre idas e vindas (agora a gente praticamente vive no aeroporto), antes do final de dezembro ele já tinha conquistado metade da minha família - e eu finalmente estou conhecendo quase todo o grupo de amigos dele. Dia 29 de janeiro fizemos 3 meses da data de pedido de namoro oficial. Eu sei que a vida não é um conto de fadas, mas de vez em quando ela faz de tudo para parecer.

E além

Namorar é uma loucura. Às vezes eu penso que ter "esperado demais" acabou me deixando mais despreparada, às vezes eu acho exatamente o contrário. Desconfio severamente que a Analu de 16 anos, que tanto queria conhecer um príncipe encantado, não saberia lidar com isso. É muito diferente de todas as outras relações que já construí na vida. Minha família jamais "terminaria" comigo do nada e nunca coloquei um ponto final numa amizade, mas namoros, aparentemente, são assim. Alguns são para sempre, outros não, e dentro desses outros existe aquela pequena possibilidade de um relacionamento terminar com os 2 não querendo mais e em paz. Mas é uma pequena possibilidade. Existe toda a outra porcentagem, onde um só desiste e o outro tem que aprender a se virar - e de repente passa a ser muito esquisita a sensação de estar com alguém que você ama e que pode ligar para você num sábado a tarde e dizer que não está mais afim.

Durante esses 3 primeiros meses a gente não teve nenhuma briga, mas mais conversas sérias do que eu imaginava, muito por causa da distância e do aprendizado de reparar as arestas que toda nova relação deve exigir. Aprender os limites de um e de outro, dar aquela requebrada nos estilos de vida quando eles não andam tão juntos. Tudo até agora resolvido na base de muito diálogo e muita tranquilidade dele enquanto eu chorava do outro lado. Eu sempre fui uma pessoa que chora, falar de coisa séria balança todos os meus ânimos, mas até agora a nossa boa vontade para conversar e para ser sincero tem feito tudo se desenrolar da melhor forma possível. Minhas amigas disseram que um namoro com premissa de sinceridade e diálogo tem tudo para dar muito certo. Amém. E além.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Acabou, Jéssica?

Quem vê pensa que foi assim o ano todo

Chegou o dia 31 de dezembro e com ele aquela tradição de aparecer no blog para se despedir do ano que está indo embora e pedir pelo amor de Deus para que o próximo seja melhor. Na verdade, 2015 requebrou tanto a cadeira (?) e remexeu tanto na minha vida que resolvi me entregar à zoeira e até o título do post de fim de ano é um meme eu nem sei se a palavra correta do que espero para 2016 seja "melhor". Senta aí que lá vem história, afinal de contas, se eu tenho um resumo para fazer das linhas a fio que vou despejar aí embaixo, esse resumo é: 

2015 foi um dos piores anos da minha vida
2015 foi um dos melhores anos da minha vida

BA DUM TS. Se ficou confuso para vocês imaginem pra mim. Vamos por partes. Lembro que no fim do ano passado o Gregório Duvivier escreveu um texto dizendo que todos os anos passam rápido, mas alguns passam como um AVC e outros como uma andorinha. Eu sei, eu também citei esse texto no meu último texto do ano passado mas que que eu posso fazer se ele sempre parece cabível? Enfim. Acho que 2015 passou foi feito um elefante mesmo: não tão ruim quanto uma doença fatal, nem de longe tão leve quanto uma ave (#rainhadasmetáforas).

A verdade é que não dá pra dizer que esse ano não foi marcante. 2015 foi tudo nessa vida menos leve e fácil. O que foi ruim foi ruim demais - o que foi bom foi bom demais, também. Neil Gaiman diz em Um oceano no fim do caminho que não existe nenhum adulto sequer no mundo e eu acredito muito nisso. Mesmo assim acho que muitas das coisas que eu vivi esse ano foram as coisas mais adultas que já me aconteceram. 

Esse ano eu perdi meu avô e fui demitida pela primeira vez na minha vida. Não que uma coisa se compare à outra, mas eram duas coisas que eu tinha muito medo que acontecessem. A primeira porque meu avô, além de ser uma pessoa que eu amo muito, é (não consigo falar dele no passado) o maior alicerce da minha família. A segunda porque eu achava que ser demitida era uma situação totalmente terrível, que a gente devia morrer de vergonha, se sentir imprestável, querer se enfiar num buraco e coisa e tal. 

Perder meu avô foi a segunda coisa mais terrível que aconteceu na minha vida (por ordem cronológica mesmo, não de importância), mas isso me mostrou que a minha família é ainda mais sólida do que eu pensava. Ser demitida não foi nem de longe o bicho de sete cabeças que eu pensava que seria: tá tudo muito bem, obrigado, não fui linchada, não quis morrer de vergonha e continuo fazendo freelas para a empresa que eu trabalhava. (Isso tudo aí é ser meio adulto, não é? Ver grandes medos nossos se tornarem realidade e descobrir que somos capazes de enfrentá-los e que bola pra frente?)

As coisas maravilhosas que aconteceram nesse ano também foram bastante adultas. Em 2015 eu casei uma amiga (essa aqui!) e pouco tempo depois conheci o amor da minha vida. PAUSA: "Você não precisa amar uma pessoa como se ela fosse o grande amor da sua vida. Eu preciso.". DESPAUSA. 

Quero dizer para vocês que se vocês nunca organizaram um chá de pinto lingerie num apartamento alugado no Rio de Janeiro, nunca foi para o salão fazer folia com suas melhores amigas, nunca invadiu a suíte da noiva para cantar Beyoncé com ela (e se emocionar com ela sendo maqueada para o grande dia), nunca participaram de um cortejo segurando buquê, nunca fizeram um discurso no altar desejando que duas pessoas sejam felizes para sempre e nunca assinaram como testemunha de um casamento vocês não sabem o que estão perdendo. O dia em que eu casei uma amiga pela primeira vez foi um dos dias mais felizes da minha vida e também foi um dos dias mais felizes da minha vida o dia em que, pouco mais de 3 meses depois, eu fui dormir nas nuvens com uma sensação deliciosa que eu desconhecia: estar apaixonada e não ser platônico. (Tudo isso aí também é muito adulto, né não?)

2015 foi rápido como todos os outros anos... e longuíssimo, ao mesmo tempo. Ele teve tanta paulada e tanta coisa boa - e tanto as pauladas como as coisas boas foram sempre tão fortes que me fizeram perder o rumo de casa TANTAS VEZES - que parece que o que aconteceu, por exemplo, no começo do ano, já aconteceu há muito mais tempo do que só alguns meses. Pareceu um ano esticado e cheio de surpresas. Pareceu até que eu estava desafiando: quando acontecia algo muito bom e eu pensava "duvido que algo ainda se equipare a isso"; quando acontecia algo ruim, lá vinha, rápido e faceiro, o mesmo pensamento, com uma pequena variação "agora chega, né, Jéssica?" só que nunca chegava até que, como tudo na vida, aparentemente, chegou. Hoje é dia 31 de dezembro. Amanhã vai ser 2016.

Eu comecei 2015 me colocando à prova: morro de medo de agulha e estava com uma tatuagem marcada para o dia 5 de janeiro. Venci um medo grande, me senti maior e mais forte, mandei o ano vir porque eu estava pronta. Dado o resumo de tudo de importante que aconteceu durante esses últimos 365 dias, acho que concluo o ano com um grande e cansativo empate com vários gols. Daqueles que você leva um, fica triste, faz um, fica feliz da vida, leva outro, fica triste e assim vai indo. Vamos definir que o ano terminou no 3x3 - e bem feito pra mim, já que foi isso que eu pedi dele fazendo tatuagem no início de janeiro e gritando aos quatro cantos que o que me afogava é que me fazia ter vontade de flutuar.

No primeiro dia do ano eu sempre fico esperançosa e poética porque sim, eu sou esse tipo de pessoa clichê que cisma em acreditar que ano novo vida nova um livro de páginas em branco pronto para a gente aprontar o que quiser e blablabla. No primeiro dia de 2015 eu sentei feliz da vida para escrever no caderninho cor-de-rosa que eu tinha comprado porque decidi que ia levar a sério a história de fazer um journal (HAHAHAHA) que 2015 seria o ano da minha vida... mas só até 2016. Sabe aquilo que a gente cisma em tentar aprender, de aproveitar o presente porque ele é, na verdade, o único tempo que temos mesmo para viver? Então. Eu acho que eu já sei disso sem nem saber.

Fui dar uma olhada na minha retrospectiva de 2014 e vi que ela estava totalmente na vibe dessa: o que foi ruim foi ruim e o que foi bom foi melhor ainda. Talvez eu ande achando que todos os anos são muito intensos porque eu tenho aprendido a vivê-los de verdade, ou isso é só mais uma filosofia de boteco? Sei lá. Sei que eu já aprendi tem tempo de que eu sou uma pessoa que sente e que se não fosse assim não seria eu então vou continuar assim, sofrendo muito com o que for ruim, sendo feliz demais com o que for bom e que Deus me livre de um dia não ser realmente tocada pelo que acontece.

O que eu espero de 2016? Sei lá. Só sei que eu pretendo começá-lo tomando água de coco na praia, sossegada, de mãos dadas com o maior presente que 2015 ano meu deu, olhando a vida acontecer e as ondas baterem levinhas na areia - porque às vezes tudo o que a gente precisa é de um pouco de sossego bem acompanhado. Durante os outros 365 dias, sei que virão muitos outros sossegos e muitos sufocos também - mas dá para cruzar os dedinhos e torcer para que o saldo de gols seja positivo para o lado das coisas boas? Dá, né. E não me perguntem por que diabos eu encafifei com essa metáfora futebolística já que nem de futebol eu gosto. Feliz ano novo!

Nenhum post importante deste blog pode terminar sem gif da Taylor Swift

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O final feliz não foi o final

A primeira vez que eu assisti Friends eu era relativamente nova. Devia ter lá meus 15/16 anos e uma fé cega em relações amorosas na ficção que, por sinal, mexiam comigo de uma maneira que não era de Deus. Já passei noites sem dormir nessa vida pela angústia direcionada a um casal de novela que NUNCA ficava junto – e assisti a cena do reencontro vezes a fio para sentir o peito ardendo tudo outra vez. Quem é mais sentimental que eu?

Enfim. Por essas e outras, nada mais óbvio concluir que eu passei, sim, todas as dez temporadas da série comemorando cada cena feliz de Ross & Rachel e ficando contrariadíssima cada vez que eles brigaram. Sempre tive certeza absoluta de que eles eram suas lagostas e que estavam, desde sempre, destinados a ficar juntos no final e eles ficaram. Ficaram?

Essa foi uma pergunta que começou a ecoar de leve na minha cabeça nas vezes em que me aventurei a assistir à série novamente. Calma, não mudei de lado. Apesar de achar o Joey incrível quando ele se apaixonada pela Rachel, nunca seria capaz de torcer para que os dois ficassem juntos de fato. Eu continuo sendo team Ross. Só acho que eles são só mais um casal que a ficção usou para nos ensinar, a duras penas, que nem todo grande amor tem que ser eterno; que nem toda grande paixão funciona, de fato, a longo prazo. Às vezes as pessoas se amam demais, mas não conseguem ficar juntas para sempre porque acaba que quando estão juntas não se gostam tanto assim.

one-day-emma1Um rápido oferecimento de David Nicholls

Ross e Rachel se amam, ao menos diz a lenda. Ele então jura que ama desde muito, desde sempre. Só que todo mundo que já viu a série de cabo a rabo sabe (por mais que seja difícil admitir) que eles se amam mais quando estão separados. Se amam quase que platonicamente. Talvez amem mais a ideia que fazem um do outro do que a realidade. Se doem de amor quando aparece um novo parceiro na vida do outro. Se amam com voracidade no início de cada nova tentativa de ficarem juntos… para rapidamente se desentenderem e alguém concluir, entre trancos e barrancos mais uma vez, que não dá. Talvez eles não tenham reparado nisso, mas a gente reparou.

É por isso que depois de ter assistido inúmeras vezes à Rachel entrar naquela sala dizendo que saiu daquele avião que, mesmo com o coração saindo pela boca, me dá uma sensação de melancolia. Porque eu não consigo mais pensar que FINALMENTE eles ficaram juntos de vez como eu pensava antes. Eu só consigo pensar que eles vão tentar mais uma vez, com mais uma retomada estonteante, e que vai dar merda em questão de dois meses. I can see it hapenning, sabe? A única diferença é que dessa vez foi o fechamento da série e quando eles começaram a arrumar treta pouco depois a gente não podia mais ver. O fato, mais uma vez, é aquele velho conhecido dos amantes da ficção: nunca conseguimos puxar uma cadeira e pegar uma bacia de pipoca para acompanhar o tal do final feliz.

Talvez existam amores que sejam assim mesmo, feitos de grandes momentos e não de grandes histórias; não de grandes continuações. Talvez existam vários casais exatamente como eles: que ficarão dando murros em pontas de facas vezes a fio tentando fazer a coisa funcionar. Talvez até o para sempre deles seja exatamente isso: as tentativas. Ou talvez pouco depois que eles se separarem de novo eles encontrem cada um um novo rumo e remoam até os 100 o fato de se amarem tanto e “não terem dado certo”. Talvez aos 80 eles ainda debatam se estavam on a break, inclusive. Talvez.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Uma filosofia de botequim inesperada ou quase - 24/31

Deixa eu contar uma coisa para vocês: eu fui uma criança e tanto. Nem tanto na minha visão, vejam só. Eu era meio besta, não tinha quase nenhuma inteligência emocional não que agora eu tenha rs e vivia sofrendo bullying, mas aos olhos dos adultos eu era a menininha simpática e educada que sabia conversar quase feito gente grande e só tirava nota alta. Meus pais nunca precisaram esquentar a cabeça com meu boletim e eu rapidamente descobri que, se eu tinha um charme nessa vida, era esse. Eu era inteligente. Eu conseguia fazer as coisas. Eu era aprovada em tudo o que eu me predispunha a fazer... até que eu fui reprovada pela primeira vez.

Era um teste da universidade de Cambridge que a maioria dos alunos da Cultura Inglesa, hora ou outra, acabavam fazendo. Eu devia ter uns 16 anos quando tentei o meu - e eu não passei. Vamos contextualizar aqui rapidinho: eu não reprovei por 10 pontos, nem por 5. Eu reprovei por 1. Uma questão a mais que eu tivesse acertado e eu teria um certificado de proficiência em língua inglesa nas minhas mãos. Por 1 ponto. Foi nesse dia que eu descobri que o "quase" não existe.

O "quase" não existe de fato, mas se a gente pensar a fundo no conceito dá para concluir que ele é uma ótima invenção de linguagem para nos servir de consolo quando algo que tentamos não deu certo ou, também até quando escapamos por pouco de alguma desventura: QUASE caí de bicicleta mas consegui frear a tempo, ufa.

Quando eu paro para analisar a humanidade (!) e suas particularidades penso que talvez tudo o que alguém se preocupou em criar em algum momento seja para nos amenizar de alguma forma; para facilitar. A roda facilita a locomoção que, por sua vez, faz de tudo para amenizar as distâncias que devemos percorrer. Não seria diferente com as criações mais metafóricas e linguísticas. O ser humano precisava de um conceito que ajudasse a definir essa sensação de "não conseguir" ou "conseguir" por pouco. Mas é só consolo mesmo. É um afago mentiroso. O "quase" não existe.

Uma bola que bate na cesta e não entra não conta ponto. A que bate na trave não é gol se não balançar a rede e os quase gols não valem décimos de pontuação no placar da Copa do Mundo. Quando a gente quase beija alguém que ama a gente infelizmente não guarda o gosto dela na boca - e quanto a gente tira 59 numa prova cuja média era 60 a gente quase garante o certificado de inglês, mas não dá para colocar no currículo.

É duro encarar a realidade, mas às vezes é necessário receber uma epifania ou outra, mesmo que seja só para pensar sobre o assunto e depois guardar na gaveta de novo. O "quase conseguir", na verdade, apesar de nos parecer mais perto do "conseguir" do que do "não conseguir" sempre foi a mesma coisa que o segundo, sem tirar nem por. Quem quase consegue não consegue. Quem quase cai de bicicleta não cai. Quem começa a divagar sobre um advérbio de intensidade no meio de uma tarde de sexta-feira quase consegue escrever um texto decente - mas, vocês sabem, quem quase escreve um texto decente não escreve de fato, e então vou postar isso aqui mesmo porque foi o que deu para fazer. 

sábado, 22 de agosto de 2015

Clara, - 22/31

Eu podia começar essa carta te dizendo que você nem nasceu (acho que tá um pouquinho longe ainda, filha) e já é a coisa mais importante da minha vida, mas acho que isso seria romantizar demais para o momento e colocar nas suas costas um peso que você não é obrigada a carregar. Talvez, inclusive, seja a hora de eu confessar que agora, nesse momento, agosto de 2015, você não é a coisa mais importante da minha vida não – e eu nem vou pedir desculpas.

Deixa eu te explicar: eu sonho com você desde que eu descobri o que era sonhar. Você não é meu sonho de olhos fechados, é de olhos abertos mesmo. Sempre sonhei acordada com você. Desde os meus 3 anos, quando eu levantava a blusa e colocava minha boneca de cabeça-de-plástico-e-corpo-de-pano para mamar, eu sonhava com você. Quando era adolescente e achava a adolescência um saco, tudo o que eu queria era acelerar a minha vida para chegar logo no momento em que eu finalmente te pegaria nos braços. Perdia horas e horas matutando incomodadíssima de verdade com a não-passagem do tempo, queria você já-agora, tinha toda a certeza do mundo de que eu só seria realmente feliz quando tivesse você e que enquanto eu não tivesse tudo devia passar na velocidade 3 do The Sims. Eu queria, naquela época, ter o controle remoto de Click nas minhas mãos. Que bom que eu não tinha.

Naquela época, Clara, no alto dos meus 13 anos que eu não tinha vontade nenhuma de aproveitar, eu teria passado o tempo sem nem pensar duas vezes caso tivesse tido a chance. Mas eu não tive a chance, é claro, e que bom. Hoje, 10 anos depois, eu já aprendi que o tempo passa sozinho se a gente se distrair – e que a gente se distrai bem mais do que devia, e que por isso ele passa mais rápido ainda.

Hoje eu tenho 23 anos. Eu não sei quando você vem (mas você vem) e eu ainda sonho acordada com você praticamente todo dia, mas como eu disse lá em cima, você não é a coisa mais importante da minha vida – e que bom. Imagina se eu estivesse, até agora, emburrada como a menina de 13, achando que a vida não tem graça porque você não existe, que grande merda seria?

Filha, eu sempre quis ser mãe. Eu sempre brinco que a maternidade é meu maior sonho de carreira e que você vai ser o meu melhor projeto de vida. E aí eu dou muita risada da minha cara se paro para colocar as coisas em perspectiva. Fico pensando na minha mãe, sua avó. Fico pensando nela aos 10, aos 15, aos 20 anos, brincando com as irmãs e os sobrinhos, sonhando com o momento que pegaria a própria filha no colo. Imagino ela sonhando comigo com a mesma ânsia com a qual eu sonho com você e dou muita risada porque, sério, é bizarro se colocar nessa posição de ser o sonho de alguém.

Fico me imaginando feito esse sonho que minha mãe sonhava. Aí eu faço uma varredura rápida da minha vida e lembro que eu não gosto de brócolis, sou de humanas e morro de medo de agulha. Captou? Não, né, foi super abstrato mesmo. Vou explicar. Joguei 3 características aleatórias minhas só para mostrar que, olha só que curioso, eu não sou o sonho da minha mãe. Eu sou um outro ser humano que tem uma porção de particularidades e faz uma outra porção de coisas. Sou um outro ser humano, que vive com as próprias barreiras, questões e monstros para enfrentar. Um outro ser humano, que vive com os próprios sonhos para realizar. Não é engraçado isso?

Eu sempre digo que eu sonho com você, mas às vezes é bom lembrar que o máximo que eu posso fazer é sonhar com qualquer vaga ideia que eu possa ter de você – e que você vai ser completamente diferente de tudo o que eu vier a imaginar e que a mágica é justamente essa. E é exatamente por isso que você não pode ser a coisa mais importante da minha vida, ao menos não agora. Não é justo comigo e muito menos com você.

Eu imagino nosso primeiro encontro de várias maneiras, e não tenho dúvidas de que o dia que botar meus olhinhos em você pela “primeira vez” eu vou dizer “que saudades, filha” ao invés de “olá”, porque sempre tive pra mim que nossa relação vem de outras vidas. Quero muito te pegar no colo e te encher de beijos e ver as nossas vidas acontecendo lado a lado, aproveitando cada minuto da chance desse tempo-espaço que teremos para compartilhar.

Aqui dos 23, onde estou agora, a vista está uma loucura. Eu não faço a menor ideia do que estou fazendo com a minha vida, mas me divirto um bocado tentando aprender como as coisas funcionam e acho que foi muito interessante essa epifania que bateu, de que o máximo que eu posso fazer por enquanto é esperar ansiosa pelo dia em que vou começar a te (re)conhecer, de fato. O dia em que eu pegar você nos meus braços e ter a certeza de que estou realizando o maior sonho que já tive na vida até então, e que a partir dali começa uma fase totalmente nova. Sim, porque por mais melancólico que isso pareça, quando a gente realiza um sonho a gente acaba por perdê-lo. Quando a gente realiza, já não é mais sonho, e que bom. Porque quando ele não for mais sonho, vai ser somente você. E aí, filha, aí talvez você se torne, de fato, a coisa mais importante da minha vida – mas prometo que mesmo aí, quando isso acontecer, eu vou tentar lembrar o tempo todo que você é um ser humano com uma vida toda sua antes de ser somente parte da minha, e que você pode ser (e fazer) o que você quiser, desde que você seja do bem (e isso vai acontecer se eu cumprir a minha tarefa direitinho).

Enquanto você é o meu sonho, você é só o meu sonho. Quando você for VOCÊ, aí sim vai ser realidade, Aí sim vai ser a coisa mais importante da minha vida. Aí sim vai ser muito mais difícil, mas vai ser muito melhor e vai ter muito mais graça. Se ainda tão antes de te ver eu já te amo, quando eu te encontrar vai ser paixão. Do jeito que você for, do jeito que você quiser ser, saiba que terá, para sempre, uma parte da minha alma e o meu coração por inteiro. Eu juro. 

PS: Se você for um menininho, desculpa desde já. Como eu disse, tudo o que tenho até agora são as mais vagas ideias e é com elas que eu trabalho. Apenas troque o gênero de algumas palavras da carta, conforme necessário, imagine o seu nome ali no título provavelmente Benjamin, e saiba que o amor, a saudade, o sonho e a epifania são os mesmos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

a leveza é uma dádiva - 20/31

sabe aquela história da gente se irritar quando percebe os nossos próprios defeitos estampados em outras pessoas? então. ao mesmo tempo que isso é realmente enlouquecedor e que a humanidade poderia gastar horas debatendo esse assunto, acredito também que existe o outro lado da história: aquele de perceber no outro os seus problemas, entender demais e querer salvá-lo daquilo a qualquer custo.

eu sempre fui uma criança meio neurótica. é. dizem por aí que é tudo culpa de ter uma mãe de gêmeos [o signo mesmo, não dois filhos que nasceram ao mesmo tempo] mas nunca vamos conseguir comprovar astrologia então segue o barco. já contei um pouco sobre como era a minha neura e o nível do meu overthiking quando disse que aqui que enquanto as crianças normais tinham medo do escuro por causa de monstros, eu tinha medo de estar cega e não saber. é. mas então, em paralelo a isso eu tinha pavor de errar e de decepcionar as pessoas. se eu levava uma bronquinha aleatória na escola, era capaz de ficar meses remoendo. levei uma bronca aos 8 anos e até hoje, de vez em quando, o texto da professora esbravejando vem inteirinho na minha mente - e junto com isso, inegavelmente vem também a memória da tarde terrível que passei, chorando por causa daquilo.

eu tinha medo de tirar nota baixa, medo de machucar o colega, em suma, medo de fazer qualquer coisa que não estava no script do que esperavam de mim. eu sempre tive medo de dar qualquer passo fora da linha, e por ter passado a infância inteirinha e metade da minha adolescência baseando minha vida única e exclusivamente nesse princípio é que hoje é tão difícil aprender que quem vive de princípios não tem meio nem fim, blablabla.

às vezes brinco que queria pegar a analu pequena no colo, embalar e falar no ouvido dela que não precisa disso, sabe? a vida é bem melhor quando é mais leve e tal, mas isso não é possível. mas aí eu lembrei que uma vez eu meio que consegui. obviamente não comigo mesma, mas com uma menininha que (e isso explica o primeiro parágrafo do post) me soava exatamente como eu fui.

na escola de teatro que eu me formei tem um projeto de monitoria. é quando um aluno se interessa em acompanhar uma turma do ponto de vista do professor e participar de todo o processo do semestre. o diretor da escola sabia que eu gostava de crianças e meio que me empurrou para fazer monitoria com a turma mais tchutchuquinha da escola, e de repente não mais que de repente eu tinha comprometido todas as manhãs de sábado do meu semestre com algo que não era meu edredom, e sim uma sala com mais ou menos 8 under 7 e long story short, no meio de todas essas crianças tinha a mariana.

a mariana era uma das mais velhas, no semestre seguinte já passaria para a turma dos 7 anos, mas era miudinha. era miudinha e tímida, mas educadíssima e super empenhada. do tipo que mordia a boca para esconder a timidez mas fazia os exercícios propostos da forma que conseguisse, e aparecia para o primeiro ensaio com texto na ponta da língua.

mariana era maravilhosa, mas não era nada óbvia. no meio de crianças como a fafá e a isabelle, que viviam alegres, saltitando e soltando pérolas, não é difícil entender porque que ninguém se encantava com a mariana, logo de cara. mas eu entendi tudo e adotei ela com meu coração antes mesmo que percebesse: mariana era pesada. como eu fui. como eu vivo tentando deixar de ser.

ela tinha pavor de errar. pavor de não corresponder às expectativas. pavor de passar vergonha. em suma, tinha pavor de viver, porque para viver a gente tem que, vez ou outra, pisar fora da reta, né? e eu estava sempre ali, observando, chamando ela para bater um papo de boa, fazendo um carinho na cabeça e tentando ensinar que estava tudo bem se não desse certo, que ela era uma grande garota e não deixaria de ser. 

um dia ela pisou no pé da isa sem querer. doeu. eu não entendi direito o que aconteceu, mas de repente tinha duas criaturinhas chorando na minha frente, e enquanto a que tinha sido machucada gritava que tinha doído eu só conseguia sentir empatia pela mariana, que chorava silenciosa, mas chorava de soluçar, com um desespero que não cabia em olhinhos tão novos. óbvio que a isa nunca entenderia, mas eu sabia, de cara, que a dor da mariana em ter causado mágoa em alguém era infinitamente maior que a dor no pé da outra.

pedi calma, senti com as duas, acalmei a isa que, diga-se de passagem, em 10 segundos já estava óóóótima, desculpou a mariana e voltou a brincar. enquanto isso, a mari, mesmo depois de ter sido desculpada, não conseguia parar de chorar e não tinha coragem de voltar pra brincadeira. perguntei se ela precisava de mais carinho antes de se sentir pronta, ela fez que sim com a cabecinha enquanto seguia soltando lágrimas e lágrimas silenciosas. sentei ela no meu colo e fiquei ali, fazendo cafuné, dizendo que a isa já estava bem e que eu entendia o quanto era dolorido quando a gente errava, mas que a maioria dos erros tinha reparação e que ela não precisava se martirizar por ter pisado num pé sem querer.

depois de uma meia hora ela levantou, tentando limpar o rosto e participar da brincadeira, mas passou o restinho da aula cabisbaixa. quando saiu, passou por mim quietinha para encontrar os pais, mas eu não aguentei. puxei ela de volta, pedi meu abraço, abaixei, olhei bem pra ela e disse:

- mari, querida, às vezes a gente erra. e é chato mesmo. mas tá tudo bem. [a vida é mais que isso]

ela ouviu e tentou concordar. eu me ouço toda hora dizendo isso para mim mesma e sigo tentando concordar também. ainda. segue o barco!

> Esse é o meu texto para o meme "Se eu fosse você", criado pela Brendha Cardoso. A proposta é tentar escrever como alguém que você admira, tentando imitar os trejeitos da escrita, a pontuação, a forma da narrativa, enfim. Na mesma hora que ela me convidou para fazer eu não pensei em nenhum autor de livros, decidi que ia tentar ser a Júlia Porto rapidão. A Júlia é maravilhosa, totalmente o tipo de pessoa que eu gostaria de ser quando crescer, e escreve um dos meus blogs favoritos da vida inteira. Já li de cabo a rabo umas 4 vezes (sou doente) e cada vez me apaixono mais pelas escritas dela e pela sua visão da vida. Me encantei tanto com o jeito dela escrever que acho até charmosa essa ideia de nunca usar maiúsculas. Nesse texto, narrei uma história real, vivida por mim, mas que podia facilmente ser uma das histórias dela (e que ela com certeza narraria bem melhor que eu). Usei expressões que ela usa, colchetes ao invés de parêntesis, frases emblemáticas do diálogo em itálico e, enfim. foi divertido. Agora corrão vocês também ler o blog dela inteirinho porque ela faz isso infinitamente melhor que eu. Beijos.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Maldição da Pia

Eu não faço a menor ideia do que esse texto vai virar, mas vim cumprir ordens. É que, como comentei dia desses no twitter, recentemente minha família descobriu que eu escrevo. Não que eles já não desconfiassem – come on, eu nunca fui uma criança muito normal, eu era a pentelha que ficava pedindo tema de redação para os outros – mas agora eles oficializaram a descoberta. Agora eles leem meu blog, compartilham textos, carregam pro meu mural, debatem no almoço de domingo quando eu nem estou. Agora eles me encomendam textos.

Esse daqui, por exemplo, foi um pedido da tia Luciene (beijo, tia!) que escolheu o título e tudo e já me cobrou umas três vezes. “A Maldição da Pia”, isso mesmo, quem tem família grande vai me entender rapidinho. Imaginem um almoço de domingo. Imaginem a barulheira, as conversas, a falta de lugar pra todo mundo na mesa. Imaginem gente comendo no sofá, gente comendo na varanda, gente comendo em várias etapas. Imaginem a panela do bife que nunca consegue sair do fogão porque sempre tem mais um a ser fritado. Imaginaram? Agora imaginem o que não vira a PIA DE LOUÇA que resulta de cada aventura dessas.

Sempre tem alguém que tenta o “CADA UM LAVA O SEU, TÁ PESSOAL?”, mas em 23 anos eu nunca vi funcionar. Pra começo de conversa, a maioria dos homens tem certeza absoluta que isso não diz respeito a eles e nem cogita esfregar seu próprio copo. Para não ser injusta, já vi alguns deles quietinho, no silêncio, dar conta da louça da janta vez ou outra – mas no almoço eles não se metem. Entendido que nunca funciona a história de cada um lavar o seu? Prossigamos. É aí que a brincadeira começa.

Porque você saiu correndo quando a vovó gritou que estava na mesa e acabou fazendo parte do time que almoçou cedinho. Você leva seu prato até a pia, olha bem pra ela, vê que tem 5 conjuntos de pratos, copos e talheres ali dentro. Você olha em volta, olha pra pia de novo, respira fundo e pensa que, ah, é melhor lavar aquilo ali logo, porque VAI QUE alguém te vê ali cumprindo uma parte da tarefa e anota teu nome no caderninho, né? Vai que você ganha logo uns pontos no céu por lavar aqueles 5 pratos ali e quando o resto todo do pessoal estiver almoçado a tarefa vai ser dividida entre os outros que ainda não fizeram a parte deles? Vai que, né? Só que não. Só que nunca. E é aí que a maldição da pia acontece.

Porque quando você encosta a barriga lá, de fato, você jura que só tinha 5 pratos. Mas se Jesus realizou o milagre da multiplicação com os peixes, juro, vocês não fazem ideia do que minha família é capaz de fazer com a LOUÇA. Porque quanto mais você lava os pratos, mais pratos aparecem. Pratos de pessoas que chegam com sorrisinhos caras-de-pau e vão, sutilmente, empurrando a louça suja deles ali para a pia, afinal de contas, já que você está lavando 5, porque não 6, 7, 8? E aí você lava. Lava. Lava. Lava. Enche um escorredor, enche dois, enche três, e quando você termina, descobre que todo mundo já saiu da mesa e que você acabou lavando a louça do almoço inteiro. A maldição da pia na casa da minha avó é a seguinte: encostou a barriga por ali, só consegue sair quando tudo estiver lavado – e esse tudo é quase um infinito.


Se alguém acha que acabou está enganado: a loucura do almoço demora tanto tempo para acontecer integralmente que quando o último prato do último ser humano a comer acaba de ser lavado, podem acreditar em mim, já está na hora de colocar a mesa do café, porque o primeiro que almoçou certamente já está com fome de novo.

Na casa da minha avó SEMPRE tem louça na pia. Sempre tem comida na mesa. Sempre tem café passado. Sempre tem sacos de pão, arroz na panela, potes de manteiga, bife fritando, torta no forno e... louça suja. Louça suja na mesa, louça suja na sala, louça suja na pia, louça suja. Louça suja esperando o próximo santo (ou espertinho) que vai resolver lavar a sua própria bagunça e não conseguir sair dali nunca mais – pelo menos até o horário da próxima refeição. E se vocês acham que isso é enfadonho vocês entenderam tudo errado. Não é, gente. Eu juro.

Já lavei alguns tipos diferentes de louça na minha vida e o que eu posso dizer sobre isso é: enfadonho de verdade é lavar, em silêncio, seu próprio copo, seu próprio prato, seus próprios talheres, acabar em cinco minutos e voltar a assistir televisão. Enfadonho é lavar sozinha a louça que você sujou sozinha comendo sozinha. Lavar quinze pratos com família conversando em volta, alguém enxaguando, alguém secando, alguém tirando do escorredor, alguém pedindo mais um ovo frito – isso é privilégio, não enfado.

Enquanto a mesa estiver barulhenta, enquanto a pia estiver cheia, enquanto eu estiver resmungando porque sobrou pra mim: aí eu sempre estarei lembrando da sorte grande que eu tive de nascer na família que eu nasci. Que Deus nos livre da casa vazia, da mesa vazia, da pia vazia – isso sim é um problema sério.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

De boas intenções o inferno está cheio (?)

Esses dias essa frase me veio na cabeça assim, aleatoriamente. Eu pensei rapidamente sobre, talvez, não concordar com ela. Mas desisti do pano pra manga e mudei de pensamento. Agora ela me veio na cabeça outra vez.

Tudo porque eu estava lembrando de um livro que terminei de ler recentemente. “Azul da cor do Mar”, da Marina Carvalho. Nunca tinha ouvido falar da autora e confesso não ser uma exímia conhecedora da literatura contemporânea brasileira. Me fale de literatura brasileira e eu só vou saber citar nomes das antigas e um ou outro mais recente que acabou virando hype, tipo o Antônio Prata, a Paula Pimenta ou a Martha Medeiros. Mas li infinitamente mais livros gringos e tenho mais preguiça de arriscar em títulos duvidosos quando eles são daqui. Preconceito idiota. Enfim.

Ganhei esse “Azul da Cor do Mar” em fevereiro do ano passado, de uma grande amiga minha. Eu estava me formando em jornalismo e ela teve todo um cuidado de pesquisar para me dar de presente um livro que fosse protagonizado por uma jornalista. Fala sério, vai. Sabendo que eu gosto de ler, ela podia ter entrado na livraria e pegado o primeiro best seller que pulou na sua frente, para não ter trabalho. Mas não, ela foi carinhosa o suficiente para arriscar em um livro desconhecido e pouquíssimo cotado só porque a protagonista era uma jornalista e ela achou que esse seria um presente incrível de formatura.

E foi. Toda vez que penso nessa história eu me emociono pensando em como as pessoas sabem ser lindas. Mesmo assim, deixei o livro de escanteio, empilhado na fila de “não lidos” e passando tudo que eu comprava na frente dele. Nem entendi direito o que tinha me dado na telha quando, esse mês, finalmente resolvi pegar o coitado ali e dar conta de descobrir o que ele tinha pra mim.

Acabou que minhas previsões preconceituosas estavam corretas: o livro é bobo; imaturo. Não consigo pensar em outras palavras para descrevê-lo senão essas. Personagens completamente surreais, histórias de amor que nascem do nada, supostos adultos que agem todos como adolescentes, a utopia do mercado de trabalho onde a estagiária chega abalando e no seu primeiro dia de trabalho escreve uma matéria que supera a do jornalista estrela da redação e é publicada na primeira página... deu pra entender, né? Se ainda não deu, eu conto um spoiler: a protagonista estava na mira do revólver de um traficante, tendo sido feita refém e, ignorando toda a negociação da polícia, believem-me, o cara só resolveu soltá-la quando ela implorou pra não morrer virgem. Ou, respeitando as palavras da autora, quando ela disse que não poderia morrer sem nunca ter tido uma noite de amor, se é que ele entendia. Gente.

Cheguei num nível da leitura que eu devorava o livro e dava risada com a quantidade de clichês, falta de profundidades, diálogos ridículos e declarações de amor baratas. Até com o nome dos personagens eu já estava me irritando: as melhores amigas da protagonista se chamam Alice e Sofia e eu quero ver alguém da década de 90 ter duas melhores amigas com esses nomes. Na época existiam Marianas, Fernandas e Jéssicas, Marina. Não Alices e Sofias assim, a rodo. É por isso que insisto na falta de maturidade para descrever o que senti lendo a história. Se tivesse sido escrita por uma menina de 14 anos eu ia botar bastante fé. Meninas de 14 anos talvez acreditem em toda essa mentira-cor-de-rosa que Marina tentou me fazer engolir. Enfim.

A intenção dela com certeza foi boa. Ela quis lançar um livro, tinha essa história na manga, mandou pra editora que achou a ideia o máximo, fez o favor de casá-la com uma capa tão brega quanto e voi lá, o livro foi para as prateleiras e acabou na minha mão, por mais uma grande dose de boa intenção da minha amiga que, tudo o que queria, era encontrar uma obra com protagonista jornalista e conseguiu.

Porque que eu disse tudo isso? Sei lá. Pra dizer que talvez eu não concorde mesmo com essa história de que de boas intenções o inferno está cheio. Porque, sei lá, às vezes tudo o que a gente quer ver nas pessoas é que a intenção delas era boa. Se o bolo solou, se o presente foi repetido, se o livro era ruim... é realmente, sempre, o resultado final que importa? Acho que não, de verdade. As pessoas tem essa cisma meio inconsequente de só se importar com os finais das histórias. Todo mundo quer um final feliz, a qualquer custo. Mas o meio, gente, o meio. O meio é o caminho. O final só acontece no final, o meio dura muito mais tempo e talvez seja muito mais importante. Nem só de resultados totalmente positivos são construídas as histórias felizes. O livro era bizarro – e foi um dos presentes mais lindos que já ganhei de uma amiga na vida. A boa intenção vale sim. Talvez, em determinados casos, ela seja o que mais vale. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Perdoa-me por me traíres

Eu comecei esse blog aqui quando eu tinha 16 anos nas costas. Antes disso, passei divertidos 4 anos no anonimato, onde eu apenas lia blogs dos outros. Era uma tarefa diária, sabe. Eu tinha uma lista de mais de 100 no meu bloco de notas e todo santo dia fazia a ronda em todos eles. Entrava em parafuso quando os meus favoritos começavam a ficar tempo demais sem postar. Blogueiro legal devia ser obrigado a postar todo dia, eu pensava.

Aí eu inventei de criar o meu blog e o cuspe, ele segue insistindo em cair na testa porque, vejam só, 9 longos dias se passaram sem que eu desse as caras por aqui. Não sei se alguém sente falta, se algum fã anônimo torce para que eu poste todo dia e fica frustradíssimo do outro lado da tela querendo me demitir por abandono de cargo, não sei. Só sei que ninguém, jamais, se sentirá tão irritado quanto eu mesma se meu blog estiver entregue às traças. Cada dia sem post se transforma em uma noite onde eu deito para dormir com peso na consciência e aquela pergunta que não se cala "será que eu não consigo mais escrever, meu Deus? Será que não vou conseguir atualizar o blog nunca mais?" e a vida segue assim há quase 7 anos. 

E toda essa introdução aleatória foi só mais uma daquelas que não tem nada a ver com o post, só para distrair todo mundo do assunto verdadeiro. Então, na verdade eu estava cá incomodadíssima das ideias com a falta de ideias quando resolvi parar de enrolar e fazer, quem sabe, uma resenha sobre o último livro que li. Pensei nas batalhas que travei com ele. Pensei que de vez em quando é interessante abrir uma página em branco para descer lenha em alguma coisa, por mais que eu prefira escrever sobre o que amo. Pensei, pensei, pensei, e acabei aqui, onde continuo pensando.

Deixa eu contextualizar para vocês: eu tava afiadinha na literatura esse ano, sabem? Beirando os 20 lidos faltando 1 mês e meio para a chegada do segundo semestre, tava tudo indo muito bem obrigada. Acontece que geralmente aparece um MAS no meio das histórias de amor (?) e o MAS da minha plena relação literária em 2015 veio no meio de maio e se chama "Na Praia", de Ian McGregor McEwan.

Vejam bem, eu fiquei uns 4 anos prometendo para mim mesma que esse ano eu leio Reparação. E era sempre a mesma coisa. O ano virava e o livro continuava lá na parte das metas do Skoob. Eu olhava para ele e chegava a me dar comichão, sabe assim? Aí ao invés de resolver a pendência eu fingia que nem era comigo e comprava outra coisa. Assim foi até o momento em que dei de cara com ele em promoção na internet e pensei É AGORA OU VAI OU RACHA VEM NI MIM MCGREGOR MCEWAN e pronto, malfeito feito. Li o livro. Amei o livro. Gritei pro mundo. Mandei todo mundo ler. Essas coisas.

Fiquei com tanta vergonha de ter procrastinado tanto essa leitura que resolvi que o migo Ian merecia mais da minha parte, e foi assim que acho que fui com sede demais ao pote de um de seus outros livros e, com o perdão do trocadilho infame que estou prestes a fazer, morri "Na Praia" (badunts).

Olha, se alguém aqui me segue no snapchat (#jabá: analubussular) percebeu que a guerra foi feia. Eu fiquei praticamente 1 mês brigando com esse livrinho de CENTO E VINTE E OITO míseras (e enfadonhas) páginas. A sensação que eu tinha é de que eu lia. Lia. Lia. E o livro não acabava. Mas a sensação estava errada, porque na verdade eu não lia mesmo. Eu pegava o coitado, passava o olho em duas páginas, concluía que preferia estar morta e desistia da brincadeira mais uma vez. Foi dessa forma que passei a segunda metade de maio e a primeira de junho encalhada nas areias da literatura: por culpa de uma praia entendiante que peguei. Enquanto isso, óbvio, na vida real estava rolando uma das melhores praias da minha vida (gente, Fortaleza, anotem, comprem passagem, se mudem pra lá agora), mas isso não vem ao caso.

Então. Depois de tanto brigar com o tal do livro eu resolvi que seria justo fazer uma resenha daquelas irritadas, falando com bastante coerência e maturidade sobre tudo o que me incomodou. Sobre as idas e vindas, sobre a narrativa lenta, sobre a falta de clímax, sobre a resolução mal feita, enfim. No meio disso tudo, eu ainda pretendia dizer que Ian tinha quebrado de forma totalmente deselegante aquela promessa inviolável que um autor cria conosco quando temos vontade de casar em Vegas com a primeira obra que conhecemos do mesmo. Ian, por que?

Só que aí eu lembrei que adoro dramatizar as situações quando consigo, e antes mesmo de começar o texto fui matutar sobre um título que falasse sobre essa quebra de promessas. Concluí que talvez pudesse ser considerado até uma traição, sabe? Como assim você me dá um beijo daqueles, Ian, e em nosso segundo encontro vem com tapinha nas costas? Me senti iludida e traída, esse talvez fosse um bom ponto de partida para a resenha. Até que lembrei também que, como já disse Renato Russo, às vezes o que foi prometido ninguém prometeu, sabe? E que não era porque eu tinha amado tanto um livro do Ian que ele tinha obrigação de que todos os outros fossem à (minha) altura. 

Sabe aquela frase que o mundo vive querendo fazer a gente lembrar, aquela que diz que a expectativa é a mãe da merda? Então. É aquele pensamento martelante de que as expectativas que a gente põe sobre as coisas ou pessoas dizem muito mais sobre nós mesmos do que sobre elas de fato, né? Então. Foi por isso que antes mesmo de postar eu fui obrigada a concluir o óbvio e mudar totalmente o rumo desse texto. Achei o livro ruim e chato e isso é única e exclusivamente um problema meu. Ian não me prometeu nada com aquele primeiro beijo - a culpa foi toda minha que comecei a testar nossos sobrenomes e me imaginar vestida de noiva. Resumo da ópera (ou da pior resenha que essa internet já viu): fui de Nelson Rodrigues no título mesmo porque acho esse título foda achei que Ian merecia ouvir meu pedido de desculpas. Fiz um escarcéu mental e tanto, expus o coitado em praça pública, reclamei de uma grande traição e... foi tudo culpa minha. Fui que me iludi; eu que provoquei a suposta traição. Às vezes, um beijo é só um beijo mesmo. 

Gabriel García Marquez disse uma vez por aí que se recusava a admitir que a vida por vezes parecesse tanto a má literatura. Às vezes sou eu que custo a aceitar que as as desventuras de uma rotina literária acabam por se parecer tanto ao desenho da vida real. Se a gente para demais para pensar, tudo nesse mundo pode ser considerado metáfora, no fim das contas.

terça-feira, 12 de maio de 2015

- Você não é daqui, né?

- Não, eu nasci em Vitória mas só morei lá até os 7. Aí depois eu morei 10 anos em São Paulo e estou aqui (em Curitiba) há 5.

Eis um diálogo recorrente na minha vida. Geralmente a pessoa só pergunta, já constando, que não, eu não sou daqui, e eu rezo todo esse terço dito aí em cima. O curioso foi que hoje, do nada, eu percebi o quanto a vida é intensa quando a gente tem entre 7 e 17 anos.

Eu sempre falei desses 7 anos em Vitória como se eles tivessem sido somente uma introdução. Quase o prólogo da minha vida, essa temporada capixaba. Quando fui obrigada a sair de lá, aos 7, tive certeza de que o mundo tinha acabado e olha só que coisa, desde então eu já vi o mundo acabar muitas vezes e na manhã seguinte estava tudo bem. 7 anos naquela cidade, a mim parece terem sido muito curtinhos. 5 anos em Curitiba me soam igualmente curtos - vira e mexe me pego pensando que parece que foi ontem que caí aqui de paraquedas.

Já os 10 anos de São Paulo, esses não. Esses parecem configurar uma vida inteira, cheia de detalhes, peculiaridades, vivências. 10 anos que me parecem ter sido 30. Passei, em Vitória, mais da metade do tempo que passei em São Paulo. Já passei, em Curitiba, a metade exata desses 10 anos paulistas. Não tem tanta diferença de tempo quanto eu sempre imaginei, o que só pode explicar que São Paulo sempre teve um peso maior.

10 anos, para quem ainda não chegou aos 25, são sempre muita coisa. Mal consigo acreditar que tenho 23, como posso acreditar que ter passado 10 anos em algum lugar não é um feito de grande importância? Os 10 anos em São Paulo sempre serão maiores que quaisquer 20 que eu passe em algum outro lugar. Acho que é bem nessa fase, dos 7 aos 17, que a gente começa, a duras e deliciosas penas, a entender o que é estar vivo. Tudo nessa fase é forte demais. E São Paulo é forte demais, intenso demais, com opções demais, com vida demais.

Existe amor em São Paulo e muito, por mais que ela possa parecer hostil a muita gente que vê de fora - e por mais que meu atual sonho de vida seja me tornar carioca um dia, esses 10 anos em São Paulo (que eu nunca cansarei de martelar) sempre serão anos importantíssimos e marcantes. Muito mais que 7 em uma cidade ou 5 em outra, por mais que não pareça ser tanto tempo a mais assim.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Sobre ciúmes, projeções, aprendizados e a vida

Dizem por aí que os outros, ah, os outros, além de serem nosso inferno (há controvérsias) são também o nosso espelho. Aquela velha história de que tudo o que nos irrita nas pessoas, na verdade, nos irrita em nós mesmos.

Vocês já conhecem a minha melhor amiga, mas vou fazer uma breve apresentação para situar algum possível leitor novato: o nome dela é Anna Beatriz e ela vai fazer 6 anos daqui há 16 dias.

Eu e Anna temos uma relação de outras vidas, só pode ser. Bastou ela nascer em Curitiba para a minha vida tratar de mudar de rumo e me enfiar aqui nessa cidade gelada também (eu morava em São Paulo). Aos 4 meses ela deitou no meu ombro e dormiu, quando tinha menos de 3 horas que nos conhecíamos. Aos 10 meses ela me chamava de “Lu” e sorria quando eu chegava. Com 1 ano ela pedia para que eu beijasse seu “pizinho” na hora do banho. Aos 2 ela disse que me amava. Aos 4 ela disse, na frente da mãe dela, que preferia que eu fosse sua mãe. Sorte que a Cínthia é parceiríssima e morreu de rir da história. Sorte a minha que ela não entende que se eu fosse a mãe eu não seria tão legal, afinal ser a prima é muito mais fácil e divertido.

Anna vai fazer 6 anos e, como todo ser humano que se preze é cheinha de qualidades e defeitos. Ela é linda, inteligente, espirituosa, engraçada e carinhosa. É mandona e ciumenta na mesma proporção. Outro dia estávamos eu, ela, meu afilhado e a mãe dele na sala. Ela queria que eu jogasse com ela no IPad e eu já tinha escolhido a cor para a cobertura do bolo que ela estava fazendo, mas o Ricardo estava com bochechas irresistíveis e sua mãe me entregava o convite de seu aniversário de 2 aninhos. Enquanto a conversa rolava, Anna me puxava pelo braço e queria que eu só jogasse com ela e esquecesse o resto do mundo. Fiquei na casa do meu tio por mais ou menos 2 horas. Ela fez bico ali e não quis mas falar comigo porque quando me quis só pra ela eu queria dar atenção para outras pessoas.

Confesso o ato-falho: dei risada. Dei uns beijos nela, achei engraçado o bico que ela fez e quando ela insistiu na recusa de olhar na minha cara eu disse que a vida não era assim. Que as pessoas não eram só nossas e que elas não nos amam menos por dividirem a atenção.

Que engraçado. Estava relendo esse post maravilhoso da Julia e senti um tapa lindo sendo dado no meio da minha cara. Nós, adultos, temos realmente mania de aceitar nossos defeitos como algo já emplacado: somos assim e pronto, não dá mais tempo de mudar. Ao mesmo tempo, cobramos das crianças que aprendam rapidamente sobre todos esses processos, afinal de contas, elas estão na fase de aprender e tem mais é que aproveitar para registrar tudo de uma vez.

Eu, do alto dos meus quase 23, fiquei irritada com uma criança de 5 anos que me queria só para ela e disse que ela precisava entender que a vida não era assim. Seria cômico se não fosse trágico eu lembrar a mim mesma o fato de que eu, novamente reiterando, do alto dos meus 23, não aprendi ainda como lidar com o fato de não ser sempre a pessoa favorita - e muito provavelmente não esteja nem perto de receber esse diploma.

O ciúme da Anna só me irritou porque eu sou exatamente assim e a gente não gosta de enxergar no outro que nossos próprios defeitos são insuportáveis. Não queria que o bico da Anna me lembrasse que eu fico emburrada quando penso que minhas amigas conversam em janelas privadas entre elas e eu não estou presente em todos os dramas. Fico pra morrer quando as pessoas começam a conversar de um assunto que eu não entendo. Resolvi que não ia mais dar trela para o meu primo só porque ele, aparentemente, prefere a companhia da minha irmã. Odeio quando estou conversando com alguém e esse alguém demora para me responder, seja por whatsapp ou na mesa do jantar.

Acontece que eu já saí das fraldas há muito mais tempo que a Anna e não posso cruzar os braços e fazer bico – vão achar que eu sou maluca, e talvez eu realmente seja. Se eu falasse tudo o que eu penso quando estou com ciúmes eu perderia metade das amigas, todos os colegas, boa parte da família e quem sabe até entregaria o meu primo de vez pra minha irmã, que é muito mais leve emocionalmente e não está nem aí para o detalhe de com quem ele vai passar a noite conversando. É complicado.

Anna, eu te entendo. O mundo já é difícil demais e às vezes tudo o que a gente quer é ser a pessoa mais especial do momento pra quem é tão especial para a gente. Amor a gente multiplica ao invés de dividir, mas tempo e atenção a gente divide mesmo, infelizmente. Às vezes a gente ganha muito, às vezes não e é isso aí, bola pra frente, a gente faz um bico, guarda umas chateações e segue com a vida porque é assim que a banda toca, afinal de contas. Se você aprender, aos 6, que é assim, talvez sua vida adulta te doa um pouquinho menos. Mas talvez não, também. O fato é que eu fiquei irritada porque você não queria entender, mas hoje lembrei que nem eu entendi ainda – e que foi exatamente por isso que me irritei. Minha flor, não se engane e não deixe o mundo te enganar: não são as crianças que tem a obrigação de dar conta de tudo e aprender as coisas o tempo todo. Adulto também aprende e Deus sabe o tanto de coisas que você me ensina todo dia. Obrigada, meu amor. Me desculpa, também. E tamo junto!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Inferno Astral

Minha relação com astrologia pode ser basicamente resumida naquela frase clichê que todo mundo usa para falar de tudo o que é ~espiritualista e metafísico~: não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.

Há quem diga que não dê a mínima para signos – e é realmente complicado acreditar em previsões, por exemplo - mas eu nunca conheci alguém que fosse tão ariano com ascendente em capricórnio e lua em virgem quanto eu e poucas vezes achei definições que me explicassem tanto. Eu faço aniversário dia 14 de abril, de modo que, segundo as bruxas-que-não-existem-mas-existem, sábado entrei no meu Inferno Astral. Talvez o mais complicado de todos pelos quais já passei.

Eu vou fazer 23 anos. Qual a mágica desse número? Nenhuma, a não ser o fato de que 23 era a idade chave da minha vida desde que eu tinha, sei lá, uns 6 e respondia àquelas brincadeirinhas que definiam “a sua vida inteira” com base na idade em que você acreditava que iria casar.

23. 23 era sempre o número que estava  no centro dos meus joguinhos. E é impressionante o quanto a gente carrega do que a gente sonhava quando era criança, por mais imaturo que possa parecer.

“Ninguém tem a vida resolvida aos 20 e poucos”, disse David Nicholls em Um Dia e confirmou a minha terapeuta sexta-feira passada quando eu desabei um monte de enrosco sem filtro nenhum na cabeça dela. “Ninguém tem a vida resolvida aos 20 e poucos”, repito eu, como um mantra, fingindo que consigo acreditar que tudo bem, então, já que é assim.

23. 23 foi a idade que ficou marcada no meu subconsciente consciente. Essa idade representava o momento onde tudo estaria dando certo. Era o símbolo da adultice. 20 é quase 18. Com 21 ou 22 dá pra estar engatinhando, vai. Mas com 23 tudo tinha que estar brilhando; tinindo.

“Não existe adulto no mundo, nenhunzinho sequer”, disse Neil Gaiman. “Ter 20 ou 20 e poucos é ter 12 anos fingindo que tem algo a mais”, disse a Irena Freitas. Os escritores, blogueiros e terapeutas estão aí para bater nessa tecla e tentar enfiar na minha cabeça que não, as coisas não deviam estar dando tão certo assim nessa altura do campeonato – e talvez nunca estejam, porque vida totalmente segura e /dando certo/ pode ser uma reles ilusão.

Mesmo com toda essa consciência racional, esse meu 24° inferno astral que já apareceu aqui há pouco mais do que 2 dias veio com uma angústia do tamanho de um bonde chamado desejo. Desejo de que tudo estivesse caminhando conforme eu imaginava lá, aos 6. Que eu seria madura, bem resolvida, trabalharia no emprego dos sonhos, andaria maquiada e com as unhas sempre feitas, teria um marido e um filho bem próximo de chegar. Parece piada e poderia ser, mas não é. E dói.

Não pela falta de esperança de que um dias as coisas se ajeitem e tudo isso se torne possível. Citando a mim mesma, vou dizer de novo que tenho braços, pernas, coração, cérebro e muita vontade de fazer a vida dar certo. Dá tempo. Ainda dá tempo. Claro que dá tempo. 23 são só o começo. Mas é que a cada sonho nosso que morre a gente morre um pouco também.

ross

De qualquer forma, não tenho dúvidas de que esses 23 não deixarão de ser um marco. Depois deles completados, deixarão de ser uma previsão de futuro estável e serão, vejam só, apenas o que deveriam ser: 23 anos. 23 anos que não me prometiam nada, mesmo eu tendo feito tanta questão de fingir que prometiam.

Dia 14 de abril de 2015 eu soprarei minhas velas e comemorarei o fim de um inferno astral de 23 anos inteirinhos. Quem sabe a vida a partir deles, sem tanta pressão datada, não possa realmente decolar de uma outra forma? Até lá a gente segue, né? Vivendo, rindo, engolindo uma angústia ali e outra aqui, renovando a esperança e, porque não, chorando um pouco. Ok, chorando talvez um muito. Tem nada não. Como diz Alice Ruiz, a cada mil lágrimas sai um milagre.

aniversario

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

The best is yet to come

Já devo ter me deparado com essa frase algumas vezes nessas internets da vida. Só que às vezes a gente precisa mesmo ver a mesma coisa milhões de vezes para que ela nos marque, e foi assim que aconteceu. Logo no início do ano, vi um amigo meu postar uma foto no instagram dizendo, na legenda, que queria tatuar essa frase em algum lugar do corpo para lembrar, sempre, que o melhor ainda estava por vir.

Essa frase e consequentemente a teoria que ela carrega estão martelando na minha cabeça desde então, de forma que achei que era melhor fazer um post sobre o assunto logo. Gosto da frase. Gosto muito, embora ela possa passar, para alguns, a ideia errada de que estamos focando demais no futuro ao invés de viver o passado, e, ainda por cima, desvalorizando o passado. A minha interpretação não é assim.

Já falei algumas vezes por aqui que o ser humano não consegue viver sem ter algo pelo que esperar. Sem a espera de algo bom porvir, a gente só sobrevive. E sobreviver, apenas, não tem graça e nem sentido.  

Acreditar, sempre, que The best is yet to come não é desvalorizar o passado e ignorar tudo o que já vivemos de maravilhoso – e sim focar na fé de que, caraca, vivemos MUITA coisa boa já, mas olha que curioso: o melhor, ele ainda está por vir.

Carregar consigo a esperança de que ainda não vivemos o melhor não é deixar de estar satisfeito ou deixar de ser grato por tudo o que já foi vivido. É levantar da cama todos os dias sabendo que tem muita coisa linda para acontecer. Por mais que já tenhamos vivido momentos infinitos na vida, acreditar que o melhor, o melhor MESMO, ainda não chegou, nos faz ter mais vontade de pagar para ver. (E o que é, afinal, a vida, senão estar sempre pagando para ver?).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Everything that drowns me makes me wanna fly

1º de janeiro, ano novo, vida nova, cabeça cheia de filosofias de botequim loucas para serem colocadas no papel. Esse é mais um daqueles textos que eu começo sem fazer ideia de onde vai dar e estou avisando desde já, portanto daqui em diante a leitura é por sua conta em risco, he.

O ano começou muito bem obrigado e cheio de poesia na alma quando encontrei uma mensagem de ano novo do Neil Gaiman – que depois eu descobri que é de um bocado de tempo atrás mas, vejam só, continua novinha. Em suma, ele diz que deseja a todos que cometamos muitos erros no ano novo.

Sim, erros. Erros simples, erros gloriosos, erros que ninguém cometeu antes. Porque cometendo erros a gente sabe que está fazendo alguma coisa. Se erramos, afinal, tentamos. Visto por esse lado, o erro é praticamente um acerto.

Ainda na mesma mensagem, Gaiman disse que se o que estivermos querendo fazer estiver nos dando medo, aí mesmo é que devemos fazer. Pensei na quantidade de medos adrenalísticos que eu já enfrentei na vida: o de montanha russa, o de subir no palco, o de dizer oi para um garoto na janela do chat.

Antônio Prata diz que a gente nunca sabe o que vai acontecer quando saltarmos, mas que a vida não faz nenhum sentido se não dermos o salto. Isso mesmo, o salto, aquele salto no escuro, onde a gente sai de um lugar seguro, com impulso e tremendo nas bases, sem saber onde vai dar.

Gritei muito na montanha russa e quando no meio do looping abri os olhos, a única coisa que vi foram meus pés – e o céu. O carrinho anda tão rápido que esse frame da minha vida deve ter durado 1 segundo, mas foi 1 segundo infinito. Subi no palco um punhado de vezes nessa vida – e em todos os momentos de gelo na coxia, antes de entrar e dar a primeira fala, eu me arrependi de ter inventado moda. Segundos depois, ao dar a tal da fala, era simples lembrar que era possível. A janela do garoto ficou muitos dias aberta enquanto eu não arranja força para digitar o O e o I. Até que eu o fiz. Não nos casamos – sequer nos beijamos ou marcamos um encontro – mas o papo foi divertidíssimo.

A gente não tem como saber se não tentar. Se a gente tentar e errar, tudo bem, afinal de contas, só erra quem tenta, só toma de 7 quem entra em campo. E se querem saber mais, o medo é o grande tempero da vida.

Porque que o Carrossel não chega aos pés da montanha russa? Dar voltas e voltas sentada no cavalinho não coloca pedras de gelo na barriga da ninguém. A única vez na vida que eu subi num palco sem medo, a peça não deu em boa coisa. E se abrir a janela da pessoa e chamar pra conversar não for, assim, uma grande questão, deve ser que a pessoa não tenha tanta importância.

O porquê da escolha do título? OneRepublic conseguiu teorizar a vida muito bem nesse verso, oras. É exatamente o que nos afoga que nos dá vontade de voar. Fosse a vida sempre muito cômoda e fácil, estaríamos todos com a faca e o queijo na mão o tempo todo e arrancar um pedaço para degustar não seria, assim, tão maravilhoso.

Fica registrado mais um desejo meu para 2015: que eu, que você, que nós, tenhamos muito, muito medo – e enfrentemos um depois do outro. Até quando o salto der errado e quebrarmos uma perna, até quando dermos com os dentes no chão, até quando errarmos e, talvez até, principalmente quando errarmos, estaremos acertando e muito.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

5. O Daniel

Livremente inspirado nesse blog genial aqui

Tem pessoas com as quais construímos relações densas. Daquelas que são construídas pouco a pouco e tem milhões de detalhes e nuances. Tem aquelas, por outro lado, que são leves. Levíssimas e, de forma nenhuma, vazias. Apenas leves. Fáceis. Daquelas que não exigem muito, que não dão trabalho nenhum, que apenas existe.

Outro dia eu estava quieta no meu canto, pensando na vida, depois de bater papo com um primo meu. Vejam bem, se você chegou agora e pouco sabe sobre a minha família eu vou ilustrar novamente para seu melhor entendimento: Eu tenho 31 primos de primeiro grau, por parte de mãe. 31. Muitos deles, um tanto mais velhos que eu, já começaram a casar e parir por conta, de modo que já tenho uns 10 de segundo grau também. Não sei que ideia vocês fizeram disso, mas eu acho o máximo.

Tem família que se desentende demais. Conheço muitas pessoas que simplesmente não suportam os primos. Eu não sei o que eu faria sem todos os meus. Acho que eles são um meio termo sensacional entre o irmão – aquele que vive na sua casa e você ama, mas te tesa a paciência por excesso de convívio – e o amigo – aquele que você encontra na vida e resolve que é família também. Primos, pra mim, são dádivas. Eles nascem da(s) barriga(s) da(s) sua(s) tia(s) e moram na casa dela(s). Você não tem que dividir mãe – só os avós. Avós são mais tranquilos de serem divididos. O colo deles é sempre infinito.

Primos são, em suma, totalmente diferentes de você - mas vocês sempre carregarão uma origem em comum, o que faz com que nunca se esqueçam de que apesar de diferentes, são impreterivelmente iguais . Eu, como tenho 31 deles e estou bem no meio da muvuca  das idades (o mais velho tem 40, a mais nova 8 meses) já entendi o que é ter primos mais velhos que podem sair quando você não pode, te excluir dos programas e subir no salto para te dar bronca. Entendi também o que é ser o primo mais velho, que exclui os pequenos, dá bronca neles e aperta as bochechas. Quando eu tinha 10 anos, achava muito engraçado o Alex falando assustado que tinha visto minha mãe trocar minhas fraldas e agora eu já estava fazendo provas de matemática. Hoje quem engole o desespero sou eu: adorava pedir para a minha tia me deixar segurar o Guilherme no colo; agora ele tem 14 anos e dá dois de mim na altura.

Com alguns dos meus primos eu converso muito mais. Com outros, muito menos. Mas pelo menos 80% deles renderia assunto para um post. Falei tudo isso aí em cima só pra introduzir a vontade que me deu de vir aqui, aleatoriamente, falar do Daniel. Sim, do Daniel.

O Daniel é filho da irmã gêmea da minha mãe. Ele tem 4 anos a mais que eu e é o irmão mais velho da minha prima-gêmea. Eu dormia na casa dela nas férias e lá estava o Daniel. Acho que foi assim, aos poucos, que ele virou meu ídolo  - e eu nem sei como. O apelido dele, quando criança, era Danifica tudo. Porque ele danificava, sabe. Dava nó em pingo d’água, em português claro. Escondia o controle de televisão do vovô dentro da churrasqueira (só porque sabia que vovô ofereceria 1 real para quem encontrasse o mesmo) e até a geladeira da vovó com super bonder ele colou. Uma vez saiu correndo atrás de mim segurando um garfo e me imprensou na parede. Eu tinha certeza que acabaria morta nesse dia. Daniel se escondia atrás da báscula do banheiro para nos dar susto quando íamos tomar banho. Ele tacou desodorante aerosol no meu machucado uma vez (sim) jurando que ia fazer parar de arder. Lembro da dor até agora.

Mas, de noite, depois que a Rafaela dormia e eu morria de medo de ficar sozinha no quarto escuro ele ia lá dizer que estava tudo bem. Quando eu e ela resolvemos acampar no quarto dele, ele tirou o pôster do Evanescence da parede só porque eu disse que tinha medo da Amy Lee (gente, ela parecia um fantasma naquele pôster, eu juro). E ele sempre, sempre, mas sempre mesmo, dá um jeito de me fazer rir. Contando piadas, inventando histórias, ou mesmo transformando qualquer fato banal em uma cena de comédia fantástica. Eu me acostumei tanto a rir na presença do Dani que hoje em dia ele diz “oi” pra mim e eu começo a gargalhar.

Hoje em dia ele já tomou juízo (tem tempo que não ouço falar de geladeiras com portas coladas), tem um emprego incrível e até casou. Eu encontro com ele uma vez por ano, no Natal, e pra ser sincera a gente mal conversa. Ele está sempre com a esposa e alguns amigos que costuma levar junto, enquanto eu estou sempre caçando sarna com as minhas primas em algum outro canto. Tem no mínimo 5 anos que a gente promete um pro outro uma partida de Master, que ainda não saiu. Basicamente, a gente se diz “oi” e “tchau” uma vez por ano, deu pra notar? E foi por isso que eu fiz um primeiro parágrafo falando de relações que não exigem nada, simplesmente são. Eu gostaria muito – e tenho certeza que ele também – de ver o Dani mais vezes do que vejo. De conversar mais do que converso. Deus sabe como eu gostaria de rir com ele mais vezes do que rio – rir faz um bem danado para a saúde – mas isso não acontece. Tem o tempo, tem a distância, tem a vida, tem o que for. Tem pessoas que a gente ama pela convivência, pelo cuidado diário, pela presença. Tem outras que a gente simplesmente ama pelo que são, pelo que representam, pelas lembranças que nos ajudaram a construir.

Acho que eu nunca falei isso pra ele, mas eu amo o Dani o mesmo tanto que eu amava quando a gente se via mais (olha, talvez até um pouco mais, já que hoje em dia ele não corre atrás de mim com garfos), e acho que posso acreditar que é recíproco. E eu sempre, sempre vou saber que o dia que eu estiver triste eu tenho, a um clique do mouse, alguém que vai me dizer “oi” e me fazer chorar de rir instantaneamente. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Literatura, a melhor das estradas

“I lived in books more than I lived anywhere else.”
— Neil Gaiman, The Ocean at the End of the Lane

Uma vez eu fiz um post aqui falando sobre como comprar livros era uma aposta. Hoje vou ampliar a questão para abranger todo um estilo de vida: o de quem se dedica à literatura.

Tem gente que lê e tem gente que não lê (dá pra acreditar?). Acho fácil separar nessas duas caixinhas. O tipo mais interessante, ao meu ver, é quem fica no meio do caminho. Sabe quem fica com vontade de ler um livro específico, entra na livraria, compra, lê e segue a vida? Então. Meu pai é assim. Ele ficou com vontade de ler Harry Potter e leu os meus. Ficou com vontade de ler Dan Brown, comprou os livros e leu. Quis ler Senhor dos Anéis e leu. E pronto. Esse tipo de pessoa fecha a página e segue a vida. Esse tipo de pessoa realmente consegue “fumar só mais um cigarrinho”, uma vez a cada duas semanas, e não viciar.

Literatura, pra mim, é completamente ininterrupta. Eu emendo um no outro e não vejo nada mais lógico que isso. São muitos livros pra ler e muito pouca vida pela frente (vamos chutar aí, se Deus quiser, mais uns 70 anos) para dar conta de tudo e então eu e as melhores pessoas que eu conheço simplesmente não considero que pausas sejam algo razoável. São perda de tempo. Um dia sem ler é um dia perdido.

Não que seja difícil, porque eu não decidi isso um dia na minha vida e passo meu tempo cumprindo metas. Eu simplesmente faço; simplesmente leio (assim como a mairoia dos bookaholics, senão todos). É extremamente natural acabar um livro e pegar outro e, portanto, nunca estar sem ler. Mas não é uma estrada sem percalços. Existe alguma estrada, afinal, que seja?

Já me peguei milhões de vezes sentada na cama olhando para os meus livros e pensando que mais um ano se passou sem que eu tenha feito nada da vida além de ler – e tenha lido menos do que deveria. Sempre é mais E menos do que deveria. 

O caminho da literatura é uma aposta. Uma vez alguém comentou comigo que quem me vê lendo um livro atrás do outro deve pensar que eu to sempre feliz da vida, amando tudo o que leio. Eu ri. Imagina só, que maravilha, gostar de tudo o que a gente lê? Reiterando o que acabei de dizer, ~viver para a literatura~ é uma aposta. Você lê, lê, lê, lê, da uma porção de “3 estrelas” e vezenquando consegue dar 5 com tanto, mas tanto gosto que não resta nada a fazer a não ser parar e agradecer por ter resolvido se envolver nessa roubada que é ser apaixonada por livros. É pura aposta, repito, ler 60 livros por ano torcendo pra achar uns 20 maravilhosos e ter certeza que os outros 40 valeram a pena – seja porque foram bons, porque foram razoáveis ou porque foram horríveis, afinal de contas, criticar com propriedade é sempre uma opção viável.

Resolvi falar tudo isso porque acabei de passar por um desses momentos brilhantes. Era meia noite e cinco, mais ou menos, quando terminei de ler a última página de “A Trama do Casamento”, de Jeffrey Eugenides, e não tive outra reação que não fosse fechar o livro pensando “THIS” e dar uma salva de palmas.

Aviso de antemão aos empolgados que “A trama do casamento” não é um livro que se ama. É um livro que se aplauda. A diferença? Toda ela. Tem livro que pega a gente pelo coração. Que você lê querendo mastigar as páginas, sentindo na alma cada trecho dele. Esse não. Ele te agarra pelo brilhantismo mesmo. Porque ao invés de “own”, você pensa “CA-RA-CA” e “genial”. A obra começa morna, ao meu ver, mas vai martelando sua cabeça de forma tão direta que você não tem como chegar ao fim dela sendo a mesma pessoa que era no começo.

Pra quem lembrou do autor de algum lugar, sim, foi o Eugenides que escreveu “As virgens suicidades” e não, não tem nada a ver. Não só a história como o estilo e toda a proposta narrativa. Não parece que foi a mesma pessoa e é nítido o quanto ele amadureceu. Não que ele não tenha enfiado o pé no peito da galera com as virgens – porque enfiou lindamente – mas como eu disse, no primeiro caso foi no coração e dessa vez foi no cérebro mesmo. Eugenides me deu um nó. E eu não podia estar mais feliz com isso.

Literatura, é sempre uma honra ter a minha vida desconfigurada por você.

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