Uns dois dias antes de disputarmos as oitavas de final contra o Chile eu sonhei que tínhamos perdido de 6 a 1 para o Uruguai. Acordei desesperada e aliviada ao mesmo tempo: graças a Deus era só um pesadelo. Mal sabia eu que, dias depois, a realidade se revelaria ainda pior. Não foi de 6 que tomamos. Foi de 7.
Acho que a gente sente o peso da idade bater quando vive algum acontecimento marcante. Depois do jogo do Chile, enquanto voltei à pé, para a casa do meu tio, enrolada na bandeira, pensei que iria amar contar para os meus netos que eu estava lá em 2014 e vi o Brasil ganhar uma Copa nas oitavas de final, batendo (e pegando) pênaltis. Ontem eu fui obrigada a perceber que o que vou ter que contar para os meus netos é que eu estava lá em 2014, no dia que o Brasil perdeu uma semifinal de 7 a 1 e não se iludam, queridos netos, só fizemos 1 gol porque a Alemanha ficou com dó.
Desde que eu entrei em estado de choque quando a Alemanha fez 4 gols em 6 minutos (sim) que eu fiquei imaginando o que me sobraria para escrever, já que não poderia usar o texto do hexa que veio pronto na minha cabeça outro dia.
Até agora, confesso, não descobri o que escrever. Mal dormi a noite, tive febre (sim), sonhei com futebol a madrugada inteira. Talvez meu problema tenha sido levar essa Copa a sério demais. Porque eu levei, sabe. Antes do nosso segundo jogo, minha tia disse, em um almoço em família, que a Dilma tinha comprado a nossa vitória. Eu, do alto da minha falsa maturidade, disse que era melhor perder então, porque ganhar comprado seria um absurdo. Dias depois, enquanto morria do coração no jogo contra o Chile, juro que cheguei a rezar: Dilma, se você não comprou, compre. Eu quero ganhar.
Hoje, depois de tomar de 7, apesar de estar sofrendo, retorno ao meu pensamento anterior: ganhar comprado realmente não seria justo. É duro admitir mas não estamos jogando bola e o país do futebol não merecia levantar a taça do Hexa em casa sem ter jogado bola o suficiente para isso. Quem sabe em 2018, quem sabe em 2022 ou 2026, quem sabe quando ele voltar a dar show em campo e honrar exibir a taça ele o faça de novo. Está doendo, e muito. Me senti atropelada pelos alemães ontem mas, venhamos e convenhamos, é muito mais bonito vencer na raça do que vencer na sorte.
A Alemanha está jogando tanta bola que eu nem consigo sentir raiva dos caras. Muito pelo contrário: Agora que o Brasil não está mais brincando, torcerei pela Alemanha com toda a força que me restou. Não antes, claro, de torcer para o Brasil levar o terceiro lugar. Não que eu acredite que, depois desse atropelamento, aqueles meninos, tão desgastados emocionalmente, consigam jogar alguma coisa. Mas jogando alguma coisa ou não, torcerei. Torcerei sábado, torcerei daqui há 4 anos, torcerei sempre. "Pior do que sofrer seria não ter copeado", disse minha sábia amiga Amanda quando eu disse que não brincaria de Copa nunca mais. Não sei quem eu queria enganar. Claro que brinco. Brincarei sempre. Brincarei tanto que hoje ainda estou com a blusa do Brasil que vesti em cada um dos jogos. Brincarei tanto porque sempre aprendi que não pode descer pro play quem não sabe perder. Sei perder, por mais que doa. Sei chorar por ter tomado de 7. Nunca vou esquecer desse dia mas, trocadilhos à parte, vamos tocar a bola pra frente e lembrar que nossos avós viram o Maracanazo em 1950, antes de comemorar o tetra em 94 e o penta em 2002 e que, por isso, nunca vamos perder a esperança de comemorar um hexa e um hepta (!), mesmo depois de termos sido atropelados no Mineirão, em 2014.


