segunda-feira, 9 de março de 2015

Dia da mulher

Esse post faz parte da postagem coletiva de março do RotaRoots

Vou começar dizendo que não, não estou um dia atrasada com esse post. Hoje, 9 de março, é dia da mulher. Amanhã, 10 de março, também será. 19 de abril, 30 de agosto, 11 de dezembro, todos os dias são dia da mulher e hoje eu resolvi aparecer para dizer que rosas são um gesto muito bonito. Posso ganhá-las no meu aniversário ou em um pedido de namoro, por exemplo, mas não por ser mulher. Por ser mulher eu só gostaria de ganhar direitos iguais mesmo.

Por ser mulher eu prefiro que parem de me passar cantadas nas ruas. Que parem de regular o tamanho de minha saia ou a quantidade de maquiagem que eu uso. Que parem de recriminar os palavrões que eu profiro quando estou afim e ao invés disso se preocupem em me dar crédito pelo conteúdo sobre o qual eu também sei falar.

Você já assistiu a esse discurso da Chimamanda Ngozi Adichie? Deveria.

Nele, entre outras coisas, ela conta que certa vez, ao sair de um restaurante com um amigo, abriu sua bolsa para dar a um flanelinha o seu próprio dinheiro, fruto de seu próprio trabalho. Ao receber o dinheiro de suas mãos, o flanelinha olhou para o amigo e disse: “– Obrigado, senhor.” Por que? Porque a sociedade está culturalmente incentivada a concluir que todo o dinheiro deve vir do homem. Porque é o homem que trabalha; o homem que é o líder. Nos dias de hoje parece piada. Infelizmente não é.

“De um modo literal, os homens comandam o mundo, e isso fez sentodo, há milhares de anos atrás. Porque então os seres humanos viviam em um mundo em que a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência. A pessoa mais fisicamente forte era mais apta para a liderança, e os homens, em geral, são fisicamente mais fortes. [...] Mas hoje nós vivemos em um mundo completamente diferente. A pessoa mais apta para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a pessoa mais criativa, a pessoa mais inteligente, a pessoa mais inovadora, e não há hormônios para esses atributos. Um homem é tão apto quanto uma mulher para ser inteligente, para ser criativo, para ser inovador. Nós evoluímos, mas me parece que nossas ideias de gênero não evoluíram.”

Ainda em seu brilhante discurso ela diz que a sociedade acha trivial seguir esses padrões porque foi tudo culturalmente estabelecido. Mas cultura a gente muda. Seu exemplo é o de suas duas sobrinhas gêmeas que hoje têm uma vida linda que não seria possível há algumas décadas atrás onde gêmeos eram sacrificados ao nascer porque isso não tinha como ser algo aceitável e natural (?). A mesma coisa penso eu ao tentar conceber a polêmica que era, há não muitos anos, o fato de um casal ser formado por um negro e um branco. Cultura, concordo plenamente com Chimamanda, a gente muda sim. Principalmente para evoluir e aumentar os direitos de quem os merece.

O título de sua palestra diz que todos deveríamos ser feministas. Feminista. Ta aí um título polêmico e complicado. “São todas loucas, lésbicas, de sovaco cabeludo que querem andar nuas por aí”. Pode até ser que algumas de nós sejam assim, e daí? Nenhum problema, cada um é como quiser. A generalização sim é que, em qualquer âmbito, é extremamente problemática. Não sou louca (ao menos acho), não sou lésbica, não tenho sovaco cabeludo e não quero andar nua por aí, e vejam só, dizia que não era feminista.

nash

Dizia que não era feminista mas sempre achei um absurdo o fato dos homens não lavarem a louça ou não trocarem as fraldas. Dizia que não era feminista mas sempre achei que o lugar das mulheres é onde elas quiserem. Dizia que não era feminista mas dei uma bronca na minha prima quando seu pai reclamou do comprimento de seu vestido e ela disse que quem tinha que se importar com isso era seu marido. Não é seu marido que tem que se importar com tamanho de vestido nenhum, Cínthia – eu disse – só quem pode se importar com isso é você.

hermione

Eu dizia que não era feminista, mas eu sou, porque, veja bem, eu acredito em direitos iguais entre os gêneros. Eu acredito que merecemos as mesmas chances, os mesmos salários, o mesmo respeito. Não quero e nem nunca quis ser maior do que ninguém (ou do que um homem) e nem mais importante. Só quero ser respeitada por ser igual.

Se não existe diferença nenhuma entre os gêneros? Claro que existe. Citando Chimamanda novamente digo que homens e mulheres são biologicamente diferentes, têm hormônios diferentes, orgãos diferentes e os homens geralmente são fisicamente mais fortes. As diferenças acabam aí , enquanto o mundo proclama que as mulheres se dão melhor ao preparar comida porque tem o gene da culinária (e não porque são arremessadas no fogão com maior frequência que os homens). Bem, sobre isso só faço questão de acrescentar que aqui em casa sou eu que abro a garrafinha de suco concentrado todos os dias porque meu primo não consegue. Depois que eu termino de abrir, ele vai lá e dosa a quantidade de açúcar porque eu sempre erro. Após essa singela amostra, te pergunto: quem é o forte e quem é o cozinheiro aqui, cara pálida?

Não faço tudo o que os homens fazem, mas tudo o que eu quiser fazer eu farei e ainda por cima de salto alto. Até xixi em pé, se eu realmente me esforçar. Não deve ser impossível. Ah, eles também, é claro, podem fazer tudo o que fazemos. Inclusive de salto alto, se preferirem. Não deixe os absurdos publicitários te enganarem: o poder de limpeza profunda está no amaciante, e não na mulher.

Sobre a mulher que eu sou e quero me tornar? Bom, eu sonho desde pequena em casar de vestido branco com o amor da minha vida e ter pelo menos meia dúzia dois filhos. Isso não me faz mulherzinha frente a causa de feminismo nenhuma e tampouco mulher de verdade frente à sociedade hipócrita: só me faz EU.

Uma sociedade ideal é aquela que dá a todos o pleno e indiscutível direito de escolha. Eu uso o meu para escolher quem sou e quero me tornar, sem barreiras e sem limites. Todos devem poder fazer o mesmo. Isso é feminismo.

“For most of history, anonymous was a woman”
Virgínia Woolf

Estamos todos cansados de mulheres anônimas.
Isso é feminismo.

domingo, 8 de março de 2015

Parem as máquinas

Mais uma vez eu falei tanto no vídeo que a introdução não se faz tão necessária por escrito. Só vou dizer que copiei descaradamente o título dos posts que o Morri de Sunga Branca usa para falar de novela (inclusive, sdds) pelo motivo do assunto do vídeo ser justamente esse! Isso mesmo, habemus Tag Noveleira. Quem vai tagarelar comigo?

quarta-feira, 4 de março de 2015

Leave my lunch alone

Oi. Meu nome é Ana Luísa, eu tenho quase 23 anos nas costas e eu como mal. Eu sei que eu como mal. Sei que quando tem pizza na janta eu como 3 pedaços e que me entupo de picanha quando vou numa churrascaria, mas no dia-a-dia, almoçando nos self-services da vida com a galera do trabalho, meu prato nunca passa dos R$7,00, chutando alto.

Eu coloco uma colher e meia de arroz, um punhadinho de milho, salada maionese se tiver, um pedaço de peixe ou carne e batata frita. Só. Todos os dias. E não, eu não me orgulho. Vivo, inclusive, procurando inspiração e esperando o dia em que farei a menina Paloma, que declarou que não comia salada nenhuma até o dia que resolveu que comeria, passou a comer e hoje não se imagina sem. Mas enquanto eu não tomei essa vergonha na cara, continuo comendo mal. Por que esse post? Ele é pura influência desses tweets da Anna, com os quais me deparei essa semana:


Entendam que eu me senti total e completamente compreendida e abraçada por esses tweets. Porque esse é o segundo ano que eu almoço diariamente com o pessoal do trabalho e os papos costumam ser sempre muito legais depois que todos conseguem sair da pauta inicial que invariavelmente é o meu prato de comida. 

Juro. Não sei como um prato com uma colher e meia de arroz, um pedaço de peixe e 10 grãos de milho conseguem fazer tanto sucesso elucubrativo porque é fato que nenhum almoço consegue começar em paz sem que falem do que estou comendo/reclamem da falta de salada/perguntem como eu consigo passar o dia com tão pouca comida. Sim, eu sei que eu como mal. Sim, eu sei que falta salada. Não, eu não acho bonito o meu prato, mas ele é meu. 

Teve um dia que alguém chegou a dizer que sonhava com o dia em que eu colocaria alface e brócolis no meu prato (?), comentário ao qual meu chefe replicou com “acho que ela sonha com o dia em que deixarão ela comer em paz sem falarem sobre o prato dela”  eu praticamente levantei da mesa e o abracei. 

Não me entendam mal. Sei que a intenção não é ruim. É sempre uma boa piada, todo mundo ri e ainda por cima sei que eles esperam que um dia eu internalize tudo ou canse da encheção de saco e melhore a minha vida servindo salada. Acontece que não. Não é isso que vai me fazer comer direito, isso só vai me fazer bufar e perguntar mais uma vez se ninguém tem um assunto melhor para o horário. Comentar sobre a pouca qualidade nutricional do meu prato não vai melhorar a saúde de ninguém, assim como chamar alguém de gorda não te faz mais magra, como já tentou ensinar nossa pensadora contemporânea Cady Heron. Fica a dica.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Rio 450 (graus)

A primeira vez que eu fui ao Rio de Janeiro eu tinha 6 ou 7 anos. Apesar da minha memória ser excelente, não me recordo de nada além da lembrança nítida que tenho de ter perguntado aos meus pais o que diabos tinha de tão especial na lanchonete “Pão de Açúcar” para eles estarem falando disso desde que começaram os planos da viagem. Pode parecer ridículo, mas é sério. Imaginem na cabeça de uma criança escutar os pais falando o tempo todo sobre “o dia que iremos ao Pão de Açúcar”. Eu imaginava uma mesa farta, cheia de pães, sonhos e croissants. Era uma pedra; um ponto turístico. Fim do mistério.

Anos depois (acho que já era 2010 ou 2011) voltei. Novamente com meus pais e minha irmã. Ficamos no apartamento de uns amigos deles, na Tijuca, e lembro que era quente. MUITO quente. O apartamento era lotado de tapetes e era janeirão carioca. Fomos novamente ao Pão de Açúcar e tomei um sorvete delicioso lá em cima. Passamos uns dias em Búzios, sem internet, sem companhias interessantes e com tédio sobrando.

Meu terceiro contato com o Rio é o que eu considero o primeiro, de verdade. Fui para o Rock in Rio e vivi um final de semana infinito. Tem tudo relatado em uma série de posts que começa aqui, com detalhes, mas só adianto que foi ali o início da minha paixão.

Vamos falar agora da quarta vez, em maio de 2014. Também foram rápidos 4 dias – mais 4 dias infinitos. Foi dessa vez que eu realmente me apaixonei. Gente simpática e bronzeada, praia por todos os lados, sol a pino no outono. Algo completamente diferente dessa Curitiba com moletom no verão.
Na quinta vez, em dezembro do mesmo ano, já pisei em terras cariocas me sentindo em casa. O Rio de Janeiro é assim: quando você sai do avião e pisa naquelas terras você sente um bafo quente no rosto e sabe que chegou no lugar certo. Dali é só ladeira abaixo. Quando você conversa com a primeira pessoa que te cumprimenta com 2 beijinhos e puxa o S no fim da palavra, aí sim você sabe que não tem mais volta.

Depois dessas cinco vezes eu comecei a dizer que minha alma era carioca. Não tinha como não ser. “Que país é o Rio de Janeiro, senhoras e senhores” muita gente me ouviu dizer. Porque eu, como toda apaixonada iludida, tinha certeza absoluta de que aquele era o melhor lugar do mundo. O mais bonito. O mais feliz. O Rio certamente era um país próprio.

Foi na sexta vez que nossa relação ficou estremecida. Recentemente, passei uma semana no Rio de Janeiro. Dessa vez não foi exatamente a passeio – o que nos tira do prumo e nos lembra do fato de que “uma coisa é gostar de montanha-russa e outra bem diferente é morar no parque de diversões”. Pra começo de conversa, vou negar o que disse no parágrafo acima: o Rio de Janeiro não é um país não. Muito pelo contrário. Ele é tão mas tão brasileiro que o famoso “jeitinho brasileiro” foi concebido, nasceu e foi registrado em terras cariocas. A sensação que eu tive tendo que me virar ali era de que tudo era devagar. Tudo era cheio de pontas soltas. A cidade gira em torno de quem está atrasado, não de quem chega a tempo. E isso é só um começo.

Relembrando com minha amiga, também apaixonada pelo Rio, sobre momentos que passamos na cidade que já não é tão dos sonhos assim, conseguimos elencar uma série de intempéries que só poderiam ser carioca: taxistas que não sabem o caminho e colocam a culpa no turista; bicicletas do Itaú que são lindas na novela mas dão o maior trabalho para serem locadas; colação de grau sem cadeiras.

Paixão é isso, né gente? É ficar em alfa. Flutuando há metros do chão, fazendo de tudo para ignorar qualquer possibilidade de defeito. Amor não. Amor começa a ser construído quando a paixão ameniza, os defeitos começam a aparecer e você escolhe gostar apesar deles. Ou melhor, apesar não. Por causa deles.

Morei 10 anos da minha vida em São Paulo e cresci rodeada de paulistinhas que criticavam o Rio e os cariocas por tudo. Quando pisei lá, descobri que era pura inveja: eles tem cidade grande com praia a disposição. Conjunto perfeito com o qual os paulistas, coitados, não podem nem sonhar.

Hoje eu entendo que além da inveja tem uma questão cultural muito grande circundando the hole thing: paulistano é um bicho apressado. Tudo em São Paulo é rápido. Isso, obviamente, tem seu lado bom e seu lado ruim. Só fui na Bahia uma vez e não me lembro de quase nada, mas se procede a história de que lá tudo é devagar, o Rio de Janeiro só pode ser a sucursal do Nordeste. Mesmo assim, vejam só, temos que lidar com a verdade universal de que apesar de tudo isso e por causa de tudo isso, principalmente, ele continua sempre e indiscutivelmente lindo.


Rio, feliz 450. Já não estou cegamente apaixonada, mas tenho muita vontade de te amar para sempre. Vamos construir isso juntos?