Tudo começou quando eu estava voltando pra faculdade e fui recrutada convidada para passar a tarde tomando conta da Anninha enquanto a Cinthia, a Bia e a minha mãe perambulavam pelo shopping. Óbvio que topei, porque perguntar se eu quero tomar conta da Anna é como perguntar para o macaco se ele quer bananas. Fui almoçar na casa dos meus tios, e depois me trouxeram com a pequena para casa. Ela quase dormiu no caminho, então jurei que assim que chegasse em casa ela dormiria. Entrei com ela deitada no colo e fui correndo pro quarto. Não preciso nem contar que ela agitou na hora. Bati altos papos cabeça com ela, do tipo em que eu falo um monte de palavras e ela vai repetindo com seu português contagiantemente foto. No meio disso, resolvi instigar para que ela chamasse a Helena, minha irmã, para que ela largasse o computador e viesse para a farra. Ela gritou pela “Nena” umas 3 vezes até que ela resolveu aparecer. E aí continuamos a bagunça e as conversas, nós 3. A internet estava fora do ar, o que foi um excelente motivo pra Helena finalmente desistir do computador. No quarto dela estava batendo sol, então carregamos a baixinha para lá. Nesse meio tempo, comemos sorvete, ela pedia “poi favoi” para darmos mais para ela. Depois ela achou a garrafinha de água da minha irmã e teve um caso de amor com ela, bebendo vários goles. Depois disso, ainda mais bagunça, cosquinhas, e milhões de palavrinhas que ela repetia. Começamos a apelar, claro, e até Évski a menina falou, quando pedi que ela falasse Dostoiévisk. E eu e Helena praticamente chorávamos de rir, e ela junto, a cada palavra. Vendo que ela não ia dormir tão cedo, aproveitamos que a internet tinha voltado e eu fui lavar a louça enquanto ela ficou no colo da Helena assistindo musiquinhas no youtube. Assim que eu terminei a louça, a Helena me entregou a menina, que segurava uma caixinha na mão, e disse: Olha, ela não vai dormir. A questão era só uma: Ela estava morrendo de sono.
Levei ela para o meu quarto, e fechei a veneziana, fazendo com que ficasse tudo escuro. Deitei ela, peguei o Lipe (meu cãozinho de pelúcia, fiel escudeiro) e comecei a ninar. Ela berrou pela Helena. A Helena veio, e ela não quis de jeito nenhum ir para o colo dela. Falei: Helena, fecha essa porta e senta aí na minha cama, ela quer você aqui pra dormir. Aí começou a palhaçada. A Helena pegou o Lipe, eu deitei a Anninha e começamos a cantar paródias de canções de ninar. Detalhe: Eu ninava a Anna, e a Helena ninava o Lipe. Eu achei que ela nunca ia dormir, porque no meio das músicas a gente não aguentava e morria de rir. Tentem imaginar:
O cravo brigou com o Lipe, debaixo de uma sacada.. O cravo saiu ferido, e o Lipe despedaçado.
Cinco Lipinhos foram passear, além das montanhas, para brincar. A mamãe gritou: Au, Au, Au, Au, mas só quatro Lipinhos voltaram de lá.
Enfim, nem sei como, mas no meio dessa palhaçada, ela dormiu. Nem acreditei. Arrumamos o colchão bem fofo, coloquei a menina lá rezando pra ela não acordar. Ajeitei, cobri, deixei o Lipe do lado dela, encostei a porta e fui terminar de reler meu Harry Potter. Ouvi um barulho e corri lá ver. Não era ela, ufa. Encostei a porta pensando: Tomara que ela demore a acordar. Terminei o livro rapidinho, corri no quarto olhar e ela continuava dormindo. E dormia, e dormia, e ai, ao ver essa cena, meu pensamento já era outro:

Puxa vida, será que ela vai demorar muito a acordar? Estou louca pra brincar mais um pouco!
Na foto, claro, ela e o Lipe, nosso Santo Protetor das Causas Impossíveis.